Ttulo: Ainda resta uma lgrima.
Autora: Barbara Cartland.
Dados da Edio: Livros Abril, So Paulo, 1983.
Ttulo Original: "Women Have Hearts".
Gnero: romance.
Digitalizao: Dores cunha.
Correco: Emmanuelle Garrido.
Estado da Obra: Corrigida.
Numerao de Pgina: Rodap.

Esta obra foi digitalizada sem fins comerciais e destinada unicamente  leitura de pessoas portadoras de deficincia visual. Por fora da lei de direitos de autor, 
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Ainda resta uma lgrima
Quando o navio comeou a atravessar o canal da Mancha, Kelda pensou que estava sonhando. No podia acreditar que, pelo menos por dois meses, deixaria para trs a 
misria e as humilhaes. Ia para a extica e fascinante Dacar e tinha certeza de que daria um jeito de nunca mais ter que voltar  sombria escola da sra. Gladwin, 
onde no passava de uma criada e onde todos lhe jogavam no rosto que era uma rf que vivia da caridade pblica. Mas agora no queria pensar no passado. Estava a 
caminho da frica como acompanhante de uma rica herdeira, e isso tinha um gosto de aventura. Ainda mais, porque ficaria hospedada na manso de lorde Orsett, um homem 
cuja vida era cercada de luxo e mistrios...
Livros Abril
Barbara Cartland
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Ainda resta uma lgrima
Leitura - a maneira mais econmica de cultura, lazer e diverso.
LIVROS ABRIL
Romances com Corao
Caixa Postal 2372 - So Paulo
Ttulo Original: "Women Have Hearts"
Copyright: (c) Cartland Promotions 1979 1

Traduo: Lygia funqueira jl
Copyright para a lngua portuguesa: 1983 Abril S-A. Cultural - So Paulo
Esta obra foi integralmente composta e impressa na Diviso Grfica da Editora Abril S. A.



CAPTULO I

1899

Caminhando ao longo do corredor, Kelda percebeu que algum chorava. Parou e ficou  escuta. Os soluos vinham do quarto de Yvette de Villon.
Continuou parada, controlando o impulso de bater  porta e perguntar o que estava acontecendo. Sabia que no lhe competia interferir, de modo algum, com as alunas 
mais velhas. A sra. Gladwin tornara isso muito claro, ao promover Kelda, de pouco mais de uma criada que fazia servios que ningum queria executar, a assistente 
de professora.
com o tom duro com o qual se dirigia aos subordinados, a diretora disse:
- Como voc toca bem piano, vai fiscalizar o estudo das alunas mais moas e ficar na sala de aula quando elas estiverem fazendo lies. Isso aliviar trabalho das 
professoras. - Fez uma pausa, como refletindo sobre o que mais poderia impingir a Kelda como trabalho, e acrescentou: - Naturalmente, seus deveres quanto  lavagem 
de roupa,  costura e aos consertos continuaro como antes, mas pode considerar isso como uma promoo e deve ficar grata.
- Obrigada, senhora - disse a moa, maquinalmente. A sra. Gladwin olhou-a com ar crtico.
- Esse vestido est apertado demais no corpete.  quase indecente.
- Creio que ficou apertado porque cresci - respondeu Kelda, em tom de desculpa.
- Ento, alargue-o!
- ( fiz isso, senhora.
- Desculpas, sempre desculpas para gastar dinheiro! Agora, pode ir.
Kelda saiu da sala da diretora, ainda sentindo seu- olhar de censura, e suspirou de alvio ao se ver no corredor.
Sabia que, embora a achasse til, a sra. Gladwin no gostava dela. S ficou conhecendo o motivo quando uma das alunas mais velhas a esclareceu:
- Fique longe do caminho do Drago, Kelda! Ela est sempre implicando com voc porque voc  muito bonita.
Kelda ficou surpresa demais para responder. Mas,  noite, depois que se retirou para seu quarto no sto, olhou para o espelhinho manchado que estava pendurado sobre 
a cmoda.
"Ser que sou mesmo bonita?", perguntou a si mesma, reconhecendo, com surpresa, que era verdade.
Estava no Colgio para Moas da sra. Gladwin desde os quinze anos, quando sara do orfanato onde vivera durante trs anos, depois que os pais morreram num terremoto 
na Turquia.
Philip Lawrence era arquelogo e a Sociedade Geogrfica Nacional o mandara fazer uma explorao na Turquia. Como uma grande concesso, permitiram que levasse a esposa.
No havia hiptese de pagarem uma terceira passagem, e Lawrence economizou durante algum tempo para poder levar tambm a filha do casal.
Kelda costumava acompanhar os pais em suas viagens e adorava cada minuto.
Quando eles morreram, ela lamentou amargamente no terem sado juntos, naquele dia.
Estava cansada, depois de uma longa expedio. Os pais a deixaram na penso barata onde tinham passado a noite, porque a menina tinha adormecido e no quiseram acord-la.
Kelda chorava, muitas vezes, no apenas pela perda dos pais, como por no ter se despedido das duas pessoas que mais amava e que significavam todo o seu mundo.
Depois do acidente, nunca mais soube quem decidiu mand-la para um orfanato nos arredores de Londres. Imaginava que tivesse sido um dos missionrios que tomaram 
conta dela, mas estava em choque e nada lhe pareceu real, at se ver como uma criana que vivia "da caridade pblica", junto com outras cinquenta rfs de vrias 
idades.
Essas crianas aceitavam a situao sem revolta, porque nunca conheceram outra coisa. Mas, para Kelda, que tinha tido o companheirismo do pai e o carinho da me, 
foi o mesmo que ser jogada no inferno, sem esperana de escapar.
Durante trs anos, sofreu a intolervel humilhao de se ver considerada uma nulidade, de receber ordens como se no tivesse sentimentos, de ter comida ruim e parca, 
de precisar dormir com mais uma dezena de crianas, tremendo de frio no inverno e transpirando no vero.
Foi um alvio, quando, aos quinze anos, lhe disseram que precisava ganhar a vida e a mandaram para o colgio da sra. Gladwin. L, pelo menos, ouvia pessoas cultas 
e tinha o que lhe parecia boa comida, embora as alunas se queixassem.
Mas o mais importante era que agora podia continuar sua educao e os estudos, que se vira obrigada a abandonar ao ir para o orfanato.
A maioria das rfs no sabia ler nem escrever. Embora uma professora voluntria fosse l todos os dias, dando aulas durante duas horas, no tinham sido tomadas 
providncias para as que estavam mais adiantadas ou que, como Kelda, eram muito inteligentes.
No colgio da sra. Gladwin, era fcil Kelda levar um livro de estudo para o quarto,  noite. Embora na maioria das vezes estivesse cansada demais para aprender tudo 
o que desejava, gradualmente, com o passar dos anos, adquiriu os conhecimentos que o pai gostaria que adquirisse.
O colgio estava constantemente mudando de professoras, mas sempre havia uma ou outra que lhe emprestava seus livros e s vezes at explicava o que ela no entendia.
Havia uma professora de francs, uma senhora de idade a quem
Kelda levava, s escondidas, um pouco de caf no quarto,  noite. Ela retribuiu a gentileza ensinando francs  Kelda.
- Voc tem um sotaque parisiense, minha menina, mas precisa praticar os verbos. Os ingleses sempre se descuidam dos verbos.
Kelda j tinha um certo conhecimento de francs, mas estava decidida a falar to bem quanto a me. Assim, procurava agradar a mademoiselle e foi recompensada, um 
dia, ao ouvi-la dizer:
- Quem no olhasse para voc, diria que  francesa. Se a ouvissem falar no escuro, poderiam se enganar facilmente.
Era um elogio que Kelda, no estando habituada a elogios, guardou no corao como um tesouro.
Ficou muito feliz quando Yvette de Villon veio para o colgio. Yvette era francesa, de uma famlia muito conhecida.
Kelda no devia fazer amizade com as alunas segundo as ordens da diretora, e sim, servi-las, passando seus vestidos e consertando-os, quando necessrio.
com persistncia, Kelda conseguiu captar a simpatia da francesinha, at que chegou o dia em que Yvette comeou a lhe fazer confidncias e a trat-la como igual.
Mesmo assim, Kelda no queria abusar dessa amizade. Agora, ao ouvir seu choro, pensou que talvez Yvette no gostasse de que se intrometesse.
Por que estaria a moa chorando?
No era como as outras, que choravam quando as professoras ficavam zangadas, ou pela saudade de casa.
Yvette era orgulhosa; portanto, no tinha nenhuma amiga mais ntima a quem recorrer, numa hora de amargura, real ou imaginria.
Mas o choro parecia to desesperado, que Kelda no se conteve. Bateu de leve  porta e, dali a um momento, ouviu a voz de Yvette, trmula e hesitante, perguntar:
- Quem... ?
Kelda virou a maaneta e, no querendo que a ouvissem, respondeu, num murmrio:
- Sou eu.
- Entre.
A moa entrou no quarto, silenciosamente. Era pequeno, como todos os quartos do colgio, mas tinha um toque pessoal, porque havia ali muitos objetos bonitos que 
pertenciam a Yvette.

8

Na cama estreita via-se uma colcha de renda cara; na nica cadeira, uma almofada de cetim. A porta do armrio estava aberta, e Kelda viu uma profuso de vestidos 
de cores vivas, todos feitos por grandes costureiros de Paris.
Mas o rosto que se virou para ela era muito diferente do rosto bonito e atraente de Yvette. Os olhos estavam inchados; o nariz, vermelho; lgrimas rolavam pelas 
faces.
- O que aconteceu?
Kelda notou que Yvette tinha nas mos uma carta amarrotada e um leno molhado de lgrimas.
- Aconteceu alguma coisa com uma pessoa de sua famlia? insistiu, preocupada.
Era no que sempre pensava, quando via uma pessoa infeliz, lembrando-se do que sentira quando os pais morreram, sem que tivesse algum para confort-la.
- No, no  isso - respondeu Yvette. Kelda ajoelhou-se ao lado da amiga.
- Conte-me o que a est aborrecendo. Talvez eu possa ajudar.
- Ningum pode me ajudar - respondeu Yvette, com um soluo.
- Conte-me, por favor.
- Recebi uma carta... uma carta de meu tio.
- E ficou preocupada?
- Eu o odeio! Sempre o detestei, e agora tenho que... ir morar com ele!
Yvette tambm era rf, mas tinha muitos parentes na Frana. Todos os anos, quando saa de frias, ia para a casa de tias e tios que tinham ttulos impressionantes 
e, pelo que Kelda soube, castelos romnticos no Loire e vilas no sul da Frana.
Yvette voltava para o colgio contando histrias do quanto se divertira, das festas a que comparecera. Parecia estranho que, agora, estivesse to desesperada.
- No sabia que voc detestava um de seus parentes. com qual de seus tios vai morar?
- com meu tio ingls. Ele  horrvel. Se eu for morar l, nunca mais verei a Frana, nem meus amigos.
Desatou a chorar e Kelda foi pegar um outro leno na gaveta da cmoda. Deu-o a Yvette e disse:
- No sabia que tinha um tio ingls. Nunca me falou nele.
- Por que haveria de falar? J lhe disse que o detesto.
- E ele mora na Inglaterra? Ento, no  assim to mau. Afinal, voc tem muitas amigas inglesas aqui na escola.
- Ele no mora na Inglaterra. Mora no Senegal.
Kelda levou alguns minutos para se lembrar de onde ficava o Senegal. Depois, achou que se enganava.
- No se refere ao Senegal, na frica? Yvette inclinou a cabea.
- Meu tio mora l porque... no gosta de vida social.  um recluso, um excntrico. Por que hei de viver com uma pessoa assim?
- H alguma razo para... voc obedecer a ele? - perguntou Kelda, hesitante.
- Papai e mame o nomearam meu tutor, muito antes de morrerem. - Yvette fez uma pausa, enxugou os olhos e continuou: Tia Ginette ainda estava viva. Como era a irm 
mais moa de mame, creio que eles acharam que poderia substituir minha me. Mas titia morreu e s sobrou o tio Maximus, que eu odeio e... creio que tambm me odeia.
- Se isso for verdade, por que ele h de querer que voc v morar l? - perguntou Kelda, com esprito prtico.
- com certeza quer me manter prisioneira na frica, onde no poderei ver meus amigos nem ir a festas, tornando-me... velha e amarga como ele.
- Como  que sabe que ele  assim?
- Eu o vi h cinco anos. E alguns de meus parentes estiveram com ele depois disso: disseram que ficou ainda pior do que era.
Kelda no soube o que responder. Dali a um momento, Yvette continuou:
- H algum mistrio a respeito de meu tio que faz com que todos se calem, quando entro na sala. Mas muitas vezes ouvi meus primos dizerem, rindo, qu tenho dinheiro 
demais e talvez acabe ficando cnica como o tio Maximus.
- Ento, ele  rico. TalVez queira torn-la sua herdeira.
- No quero o dinheiro dele, j tenho bastante. Papai e mame me deixaram tudo o que bossuam. Mas no posso gast-lo, at completar vinte e um anos e ainda faltam 
trs anos! Trs anos que terei que passar com tio Maximus, pedindo-lhe cada nquel

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Voltou a chorar e Kelda a abraou, dizendo:
Talvez no seja to mau como pensa. E ser interessante ir para o Senegal.
Lembrou-se de que o pai lhe falava da frica Ocidental e de como gostaria de ir l.
Kelda o acompanhara  Arglia certa vez, mas fazia muito tempo para que se lembrasse de como era, a no ser que havia muito sol e que ela e a me tinham encontrado 
muita coisa para diverti-las.
Ficaram pouco tempo em Arglia e acharam a cidade fascinante.
- Vou consultar alguns livros sobre o Senegal e depois lhe conto o que for interessante. Onde  que seu tio mora?
- Pouco me importa onde ele possa morar - respondeu Yvette, petulante. - Deve ser um lugar horrvel, como ele, e sei que Vou detestar cada momento que passar l.
- Talvez seja melhor do que pensa. Diga-me onde .
- Voc pode ver o endereo.
Yvette atirou a carta no cho e Kelda apanhou-a.
Tanto o papel de carta quanto o envelope eram da melhor qualidade e ambos tinham uma coroa impressa.
No quis que Yvette achasse que estava sendo indiscreta lendo  carta, mas olhou o endereo e viu que era de Dacar. No pde deixar de ler a primeira linha, escrita 
numa letra firme:
"Minha cara sobrinha...
Pareceu-lhe um modo desnecessariamente formal de se dirigir  Yvette. Explicou  amiga:
- Garanto que h muita coisa nos livros sobre Dacar, e sei tambm que  administrada pela Frana. Assim sendo, haver franceses morando l e voc no se sentir 
to s como est pensando.
- Quero morar na Frana. Quero viver em Paris, onde poderei danar e ir aos bailes que sero dados em minha homenagem, quando eu sair do colgio, no Natal.
Kelda tinha achado provvel que Yvette sasse do colgio da sra. Gladwin no Natal ou na Pscoa, j que ia fazer dezoito anos no princpio do ano seguinte.
Como gostava da francesinha, sabia que sentiria sua falta. No momento, no havia nenhuma aluna que pudesse substitu-la como sua amiga.

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- No sei o que vou fazer sem voc - disse, com um suspiro. Yvette perguntou, subitamente:
- Se eu pedir para ficar aqui mais seis meses, acha que vo permitir?
Kelda olhou para a carta que ainda segurava. No sabia explicar o motivo, mas parecia haver nela vibraes de fora e de poder.
- Acho que, se seu tutor disse que voc deve ir, ento  assim que vai ser.
Yvette levantou-se bruscamente.
- Por que tenho que viver com uma pessoa que detesto? Por que ele deve decidir sobre minha vida, sem perguntar se no prefiro fazer outra coisa?
Depois de uma pausa, continuou, zangada:
- Creio que voc conhece a resposta. Acho melhor morar numa gua-furtada em Paris, do que num palcio em Dacar!
-  num palcio que ele vive? - perguntou Kelda, curiosa.
- Creio que sim.  to rico e to presunoso, que provavelmente domina os pobres nativos!
Kelda colocou a carta na mesa, resistindo ao impulso de pedir licena para l-la.
"No h o que eu possa fazer para ajudar", pensou, com tristeza.
Ia dizer isso, quando ouviram uma batida na porta, que as sobressaltou.
- Quem ? - perguntou Yvette.
- A diretora quer v-la no escritrio, m'mselle - respondeu uma das criadas.
Foi embora sem esperar resposta, e as duas moas ouviram seus passos pesados no corredor Yvette olhou para Kelda.
- com certeza, o Drago tambm recebeu uma carta, e garanto que est babada, porque o tio Maximus  nobre!
A sra. Gladwin era uma esnobe, que se derretia com todos os pais de alunas cujos nomes apareciam em Debret. Era uma coisa da qual as moas jamais se cansavam de 
rir.
Mas agora Yvette no ria.
- Pode ter certeza de que o Drago me obrigar a fazer exatamente o que o tio Maximus deseja.

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 melhor voc descer para ver o que ela quer - aconselhou
Kelda. - Mas, antes, lave o rosto.
Deixe que ela me veja assim mesmo. vou tentar convenc-la a escrever para meus parentes na Frana, protestando contra o fato de eu ser mandada para o fim do mundo, 
embora eu duvide de que adiante alguma coisa.
- Tambm duvido. E, mesmo que eles protestem, no tm nenhuma autoridade diante da lei.
- At agora, o tio Maximus nunca demonstrou o menor interesse por mim. Nunca me escreveu, no Natal, nunca me mandou um carto. Por que deseja agora que eu v morar 
com ele? Por que o sbito interesse?
- Parece mesmo estranho - concordou Kelda. - Talvez ele se sinta muito s.
- S? O tio Maximus? Pelo que diz o primo Jacques, por mais recluso que seja, sempre tem uma amante.
Kelda ficou escandalizada.
- No acredito que seu primo lhe tenha contado isso!
- No exatamente - confessou Yvette. - Mas foi visitar meu tio, a caminho da Cidade do Cabo. Quando pensava que eu no estava ouvindo, disse uma coisa ao irmo... 
Disse que quando estava em casa do tio Maximus, viu, de relance, uma mulher bonita. Disse ainda: "Desconfio que ela era uma mtisse". - Yvette franziu a testa e 
perguntou: - Que significa mtisse? Perguntei  tia JeanneMarie, mas ela no me esclareceu.
Kelda sabia que era a filha de um branco com uma nativa, mas no ia explicar isso a Yvette. Disse, apenas:
- vou olhar no dicionrio e depois lhe conto.
- J fiz isso. Mas nada encontrei, a no ser que eu no saiba como se escreve direito.
- Voc precisa ir logo falar com a diretora - disse Kelda. Sabe como fica zangada, quando a fazem esperar.
- Por que hei de me importar com isso, j que vou sair da escola? Kelda ajeitou os cabelos da amiga e entregou-lhe outro leno.
- vou lavar estes dois - falou, pegando os lenos molhados de lgrimas. - Posso fazer mais alguma coisa por voc?
- Nada, a no ser que saiba alguma feitiaria contra o tio Maximus, para que ele caia morto! - Foi at a porta, parou e s13

acrecentou: -  uma boa ideia! Creio que h magia negra, na frica. vou procurar um feiticeiro, assim que chegar l, e verei se ele pode liquidar o tio Maximus para 
mim. Kelda deu um gritinho horrorizado:
- Que coisa horrvel de dizer! Sei que no far nada disso.
- No tenha assim tanta certeza! - respondeu Yvette, saindo do quarto.
Kelda suspirou e comeou a arrumar o quarto, maquinalmente. Estava com pena de Yvette. Por outro lado, desejou poder viajar para o Senegal ou para qualquer outra 
parte do mundo, como costumava fazer com os pais.
Uma das coisas que achava mais duras de suportar era a sensao de ficar presa; primeiro, pelas paredes sombrias do orfanato; depois, pelo colgio.
Quando os pais eram vivos, nunca ficavam muito tempo no mesmo lugar. Mesmo quando no era mandado para uma expedio importante, Philip Lawrence viajava pela Inglaterra, 
fazendo conferncias em vrias universidades. Kelda se lembrava de ter ido duas vezes a Edimburgo.
As viagens raramente eram muito confortveis, mas era excitante estar sempre em movimento.
Mais emocionante ainda, visitar um pas estrangeiro, montar num camelo ou numa mula teimosa, navegar num barco a vela, num rio, para irem a lugares que no podiam 
ser alcanados por outro meio de transporte.
- Oh, papai, como sinto sua falta! - murmurou Kelda.
Os oito anos aps a morte dos pais tinham sido um pesadelo; s vezes, pensava que ia acordar e ver que aquilo no era verdade.
Isso fez com que se lembrasse de que, embora Yvette no tivesse ainda dezoito anos, sairia do colgio para conhecer o mundo e a sociedade, enquanto ela, que ia fazer 
vinte e um em julho, provavelmente continuaria a ter uma vida sempre igual  de agora.
As vezes ficava imaginando se, caso sasse da escola, poderia encontrar um emprego mais do seu gosto.
Embora muitas vezes cogitasse isso, achava pouco provvel e ficava apegada  sra. Gladwin, porque com ela e com suas alunas pelo menos estava no meio de gente culta.

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No que a sra. Gladwin ou as meninas a considerassem uma igual. A diretora estava sempre fazendo com que se lembrasse de que tinha vindo de um orfanato e no passava 
de uma jovem que vivera da caridade pblica.
A princpio, Kelda ficava sentida com isso, achando que devia explicar que o pai havia sido um cavalheiro, e a me, uma dama, embora no tivesse dinheiro.
Depois achou que isso apenas tornaria a situao mais difcil. A sra. Gladwin gostava de humilh-la, porque, ao contrrio do que acontecia com as criadas e as governantas, 
Kelda no podia responder.
Assim sendo, aprendeu a se controlar, procurando no ouvir quando a diretora encontrava defeito em tudo o que fazia, achando ainda que a moa devia ficar eternamente 
grata por ter um teto e comida.
Era muito mal paga, recebendo a quarta parte do que ganhavam as criadas, mas sabia que nada podia fazer a respeito.
At mesmo esses ordenados miserveis estavam atrasados. No querendo reclamar o que lhe era devido, para no ter de novo que ouvir o quanto devia estar grata, Kelda 
no mencionou tal fato  diretora.
Atravessou o quarto para fechar o armrio e ficou olhando os inmeros vestidos ali pendurados, muitos dos quais Yvette tinha usado apenas duas ou trs vezes.
Kelda se lembrava de que sua me estava sempre bonita, embora no pudesse comprar roupas caras.
- No  uma questo de preo - disse ela, certa vez. -  o fato de uma pessoa ter bom gosto e saber o que lhe vai bem.
"Se eu tivesse oportunidade, tambm teria bom gosto," pensou.
Bastava olhar no espelho para perceber que o vestido cinzento de algodo grosseiro no a favorecia, dando-lhe uma aparncia de pobreza.
Eram, naturalmente, escolhidos pela sra. Gladwin, que insistia em que ela usasse as mesmas roupas cinzentas do orfanato, em vez de lhe comprar cores mais vivas e 
mais alegres.
Um ano antes, tinha pedido:
- Por favor, sra. Gladwin, j que vou ter um vestido novo, no pode ser azul ou verde?
- Acho essas cores pouco apropriadas para a sua posio. Mais ainda, mostrariam a sujeira,

15

- Lavo meus vestidos todas as semanas.
- O que  um exagero - declarou a outra, querendo pr defeito.
- Voc vai usar o uniforme que escolhi, e no se fala mais nisso.
Ao deixar o escritrio da diretora, Kelda soube que l se ia sua ltima esperana de poder parecer mais atraente!
Agora, ao fechar o armrio, ficou pensando no que compraria, caso tivesse dinheiro. Tinha certeza de que o azul e o verde-plido lhe iriam bem, como acontecia com 
sua me.
Kelda tinha os mesmos cabelos dourados, os mesmos olhos grandes de um azul-acinzentado. E a pele era bonita e clara, embora fosse plida e magra demais, de tanto 
trabalhar.
Viu-se de repente no espelho e desviou o olhar.
De que adiantava sonhar? Sempre usaria cinza, e os anos  sua frente tambm seriam cinzentos.
Yvette no compreendia como era feliz por poder escapar para o Senegal, ou fosse l para onde fosse!
Kelda tinha muitas obrigaes a cumprir at a hora do jantar. Uma delas, inventada pela sra. Gladwin, era servir as professoras que jantavam no quarto.
Elas se revezavam para tomar conta das alunas,  hora das refeies.  tarde, as que no estavam de servio faziam questo de ser servidas em suas saletas, acrescentando 
 comida do colgio algumas guloseimas que compravam ou recebiam de parentes.
A princpio, a sra. Gladwin se ops a essa inovao. Depois, no encontrando mais argumentos, salvou seu orgulho dizendo que as criadas estavam ocupadas demais, 
mas que Kelda poderia servir as professoras, levando as refeies da cozinha para as saletas e, depois, lavando a loua.
A moa no se importava muito, porque muitas vezes podia comer algumas das guloseimas deixadas pelas professoras, o que era uma agradvel mudana em relao  comida 
da escola, que nunca variava.
Naquela noite, quando entrou na saleta das mestras, notou que a conversa estava animada. Uma das mais antigas contava:
- Eu lhe disse: "No tenho a menor inteno de passar minhas frias num lugar que fica no fim do mundo. Alm disso, detesto viajar. "
Todas desataram a rir. Kelda colocou a bandeja -pesada numa mesinha.

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Que foi que ela respondeu? - quis saber uma das outras.
Apenas me despediu e mandou chamar a srta. Jenkins.
- Voc aceitou a proposta? Conte-nos, Jenkins. Queremos saber tudo!
- Claro que no aceitei - respondeu a srta. Jenkins, a professora de esportes. - vou passar as frias com meu noivo, na casa da famlia dele. No trocaria isso por 
uma viagem de ida e volta ao cu!
De novo houve risos. Kelda serviu a sopa e colocou os pratos diante das professoras.
- Quem  que ela tentou em seguida? - perguntou algum.
- Creio que falou com todas ns - explicou a srta. Dawson. Sei que Ashton recusou e o mesmo aconteceu com a srta. Hart.
- A sra. Gladwin est to ansiosa para agradar a esse nobre, que no sei por que no vai ela mesma! Ou ento poderia mandar Kelda.
Kelda sobressaltou-se, ao ouvir seu nome, e todas riram.
- Para ser franca, foi o que sugeri - contou a srta. Jenkins.
- No diga! - exclamou a srta. Dawson. - Voc tem topete. Todo mundo conhece a opinio dela sobre Kelda.
- Ficou furiosa! Foi por isso que fiz a sugesto - confessou a srta. Jenkins, rindo. - Ela sabe que todas ns compreendemos que Kelda  a nica pessoa que ela pode 
tratar como bem entende. Nenhuma de ns aguentaria o que ela aguenta.
-  verdade. Muitas vezes, fiquei imaginando por que voc no vai embora daqui, Kelda.
A moa trazia o ltimo prato de sopa e sorriu.
- A resposta  simples: porque no tenho para onde ir.
- E no tem dinheiro, creio eu - comentou a srta. Jenkins.
- H seis meses que no recebo meu ordenado. E, se recebesse, creio que o dinheiro no daria para eu ir alm de Piccadilly Circus.
Todas riram, como se ela tivesse dito uma coisa muito engraada.
- Acho isso uma vergonha - declarou a srta. Jenkins. - Mas no se preocupe. Talvez, um dia, um tio rico, do qual voc no se lembra, aparea e a leve para Tombuctu. 
Nunca se sabe quando a sorte vai aparecer!
- Sempre se pode ter esperana - observou Kelda.

17

Pegou a bandeja e saiu da saleta. Quando fechava a porta, ouviu a srta. Dawson dizer:
-  uma vergonha o jeito como a diretora trata uma moa to boa.
- Tambm acho - declarou a srta. Ashton. - Mas no h nada que possamos fazer e creio que. como uma criatura que vivia de caridade, ela ainda tem sorte de estar 
aqui.
Kelda no quis ouvir mais nada. Correu para a cozinha, parecendo ouvir o eco daquelas palavras: "... que vivia de caridade... que vivia de caridade. "
Tinha a impresso de que a estigmatizavam e que nunca seria outra coisa na vida, mesmo que tentasse. Todo mundo podia pisar numa criatura que viva de caridade pblica 
e para a qual no havia esperana, nem agora, nem no futuro.
Depois de terminar de lavar a loua do jantar das professoras, Kelda fez uma xcara de chocolate e levou-a para Yvette, no quarto. Era contra todas as regras, mas 
achou que isso ajudaria a amiga a dormir.
Abriu a porta e encontrou Yvette j de camisola, diante do espelho, com uma expresso emburrada.
- Trouxe-lhe uma xcara de chocolate.
-  muita bondade sua. No consegui jantar. Estava infeliz demais.
- Est com fome? Quer que eu desa e v buscar um sanduche?
- No, no quero nada. O chocolate  suficiente. Voc ps bastante acar?
- Trs colheres. "Quente e doce", era o que minha me receitava quando algum levava um choque.
- Foi de fato o que levei.
- O que a diretora lhe disse?
- Apenas o que voc j sabe: que tenho que ir morar com o tio Maximus. Ele enviou instrues para que ela me mande para l, como se eu fosse um pacote, acompanhada 
por uma das professoras, para que eu chegue sem problemas.
- Todas as professoras se recusaram a ir.
- Sei disso. A sra. Gladwin me chamou, depois das oraes, e perguntou se eu tinha algum parente na Inglaterra, que pudesse me

18

acompanhar a Dacar. Respondi que no e que, mesmo que tivesse, ningum me acompanharia, pois todos detestam meu tio tanto quanto eu.
Kelda deu uma risadinha.
- Garanto que ela ficou escandalizada.
- Horrorizada! Olhou por cima daquele nariz comprido e disse: "Isso no  jeito de falar de seu tio, Yvette. Tenho certeza de que o que ele est fazendo  no seu 
interesse". Falei ento que meu interesse era morar na Frana, com os parentes que amo e que me amam; que no tenho vontade de ir para o Senegal e que tenho mesmo 
 desejo de fugir!
Kelda deu uma risada, satisfeita.
- Bravo! No sei como teve coragem de falar assim com ela. Yvette encolheu os ombros.
- Ela no pode fazer nada comigo, pior do que o tio Maximus est fazendo.
- Que foi que ela disse?
- Deu-me uma lio de boas maneiras e disse que eu no apenas ia me prejudicar, como prejudicar a escola, falando de um modo to "petulante e imprprio para uma 
dama".
Yvette imitou a voz da sra. Gladwin, ao dizer a ltima frase, e Kelda tornou a rir.
- Que mais?
- Falou at ficar sem flego - contou Yvette. - Eu disse, ento: "No me admiro de nenhuma das professoras querer ir comigo para o Senegal. Se a senhora no encontrar 
ningum para me acompanhar, talvez possa escrever a meu tio, explicando que  melhor eu continuar aqui. Ou ento, Kelda pode ir comigo. Sendo filha de um explorador, 
ela pelo menos no se importar de viajar pela frica".
Kelda prendeu a respirao.
- Foi o que a srta. (enkins sugeriu. E o que a diretora respondeu?
- No esperei para ouvir. Sa da sala, enquanto ela procurava recobrar o flego, como um peixe que ficou fora da gua!
- Deve ter ficado furiosa!
Havia em sua voz uma nota que fez com que Yvette dissesse rapidamente:

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- Oh, espero no ter feito com que ela ficasse enfurecida a ponto de se vingar em voc.
- Tambm espero.
Ficou apreensiva, achando que, se duas pessoas tinham feito a mesma sugesto, a sra. Gladwin devia estar to furiosa que iria inventar um castigo para ela.
Mudou de assunto, pois esse a deixava nervosa:
- Quando  que voc vai partir?
- Dois dias antes de terminar o semestre. A diretora no deixaria que eu sasse antes, se meu tio no tivesse insistido para eu ir em determinado navio, que pra 
em Dacar, a caminho da Cidade do Cabo.
- Parece muito excitante!
- Voc sabe o que sinto - respondeu Yvette, desanimada. Gostaria que fosse comigo. Pelo menos, eu teria algum com quem conversar. Se a velha Dawson aceitasse a 
proposta da diretora, acho que eu teria morrido! Voc sabe como ela  maante.
- Bem que eu gostaria de ir com voc, mas  o mesmo que desejar a lua.
- Creio que sim. Disse que as professoras recusaram?
- Todas falaram isso na hora do jantar. At mesmo a srta. Ashton que no estava presente, recusou, pelo que as outras disseram.
- Ento, quem  que o Drago vai mandar comigo?
- No fao a mnima ideia. Talvez ela tenha alguma amiga que queira ir  frica. Ou v ela mesma.
- Ento, eu me atirarei no mar! No vou viajar com a velha Gladwin, e est resolvido!
Nesse momento, a porta se abriu e as moas viram, com espanto, a diretora aparecer.
Era raro ela sair de seus domnios, depois do jantar, e nunca ia ao quarto das alunas, a no ser uma vez por semana, de manh, para uma inspeo. A, ento, procurava 
pr defeito em tudo. Antes de sua chegada, Kelda tentava esconder qualquer coisa que as meninas tivessem esquecido e que poderia despertar a censura do Drago. Comida, 
frutas e doces eram proibidos. Qualquer enfeite que ela achasse ostensivo corria o risco de ser confiscado.
A apario da diretora foi to inesperada, que por um momento Yvette esqueceu de se levantar.

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Mas a sra. Gladwin estava fulminando Kelda com o olhar.
- Desconfiei de que ia encontr-la aqui, Kelda. Como j lhe disse, no quero v-la tagarelando no quarto das moas, o que  imprprio e no faz parte de seus deveres. 
Se no tem mais nada para fazer, eu certamente encontrarei alguma tarefa para voc.
- Como mademoiselle estava muito perturbada, vim trazer-lhe uma bebida quente, sabendo que seria uma espcie de medicamento
- disse Kelda, em voz doce.
- Se Yvette precisa de remdio, mando chamar um mdico respondeu a diretora, maquinalmente. Olhou ento para a moa, com ar severo. - Suponho que tenha chorado novamente, 
fazendo um barulho desnecessrio sobre os planos de seu tio para seu futuro.
Yvette estava to nervosa, que ficou com os olhos cheios de lgrimas. A diretora continuou:
- Precisa aprender a se controlar. Conforme lhe disse vrias vezes, o autodomnio  sinal de civilidade e boa educao.
Yvette no respondeu. Enquanto procurava o leno no cinto do vestido, duas lgrimas lhe rolaram pelas faces.
- Estive pensando nas dificuldades de sua ida para Dacar acrescentou a diretora. - Foi por isto que vim perguntar, mais uma vez, se no conhece ningum na Inglaterra 
que esteja disposto a acompanh-la nessa viagem.
- J lhe disse, senhora: no conheo ningum.
- No h nenhuma antiga governanta sua que esteja disposta a ir, mediante uma remunerao... pequena,  claro?
- A governanta que tive antes de vir para c est em Paris, ensinando os filhos do duque de Beauclaire. Tenho certeza de que no poderia ir comigo, mesmo que desejasse, 
do que duvido.
A sra. Gladwin no deu ateno s ltimas palavras rudes e ficou refletindo.
Kelda gostaria de sair dali de mansinho, mas achou que isso iria apenas provocar a clera da diretora. Como se finalmente tomasse uma resoluo, a velha disse:
- Muito bem. Se o caso  esse, a nica soluo  mandar Kelda com voc. - Fez uma pausa, no ligando para a surpresa das duas, e continuou: - Na realidade, sendo 
uma menina que viveu da caridade pblica, Kelda  pouco mais do que uma empregada. Pode

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servi-la como sua criada particular, Yvette, ao mesmo tempo fazendo-lhe companhia.
As moas continuaram mudas de espanto.
- vou mandar imediatamente uma carta para a companhia de navegao, explicando as circunstncias. Tenho certeza de que o nome de seu tio vai pesar e de que no haver 
dificuldade para que voc receba todas as atenes. Tambm vou indagar se h passageiros ingleses respeitveis a bordo. Os diretores da companhia, creio eu, faro 
o que costumam fazer quando senhoras desacompanhadas, vo para a fndia. Convidaro uma das passageiras a tomar conta de voc, Yvette, e agir como sua acompanhante 
oficial, at chegar a Dacar.
Yvette finalmente conseguiu falar:
- Estarei muito bem com Kelda.
-  o que espero, embora no confie muito na capacidade dela de cuidar de si mesma, e muito menos de voc! Mas tenho certeza de que haver algum a bordo a quem 
voc possa ser confiada, depois que o navio sair de Southampton. Irei pessoalmente lev-la ao navio para que seu tio no tenha outro motivo de preocupao.
A sra. Gladwin olhou para o rosto plido e os olhos arregalados de Kelda.
- Quanto a voc, se falhar nessa misso, se no se mostrar digna de minha confiana, garanto que nunca mais por os ps nesta casa!
No esperou pela resposta, virando-se com um farfalhar do vestido de seda.
- Agora, Yvette, v para a cama e agradea a Deus ter uma pessoa como eu para cuidar de voc e de seus interesses.
Dito isso, saiu do quarto.
Por um momento, nenhuma das moas conseguiu fazer um movimento. Pareciam petrificadas.
Ento, com voz apenas audvel. Kelda disse:
- No  possvel! No posso ter entendido... direito... Devo estar sonhando!
-  verdade, sim. Tambm eu mal posso acreditar! Se alguma coisa pode fazer com que a viagem se torne mais suportvel,  saber que voc vai comigo. vou rezar, agradecendo 
a Deus, porque, sem voc, eu morreria de desgosto na viagem!

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CAPITULO II
Depois que o navio saiu da baa de Southmpton e comeou a atravessar o canal da Mancha, Kelda apertou as mos, para ter certeza de que no estava sonhando.
Mal podia acreditar que, pelo menos por algum tempo, deixaria para trs a misria e a prpria Inglaterra, onde tinha sido desesperadamente infeliz, nos ltimos anos.
Agora, como que ao toque de uma varinha de condo, tudo estava mudando.
Pelo menos durante dois meses, ficaria livre da sra. Gladwin. Estar a bordo era emocionante para ela, embora no fosse para Yvette.
Obviamente, pelo fato de lorde Orsett ser muito rico, foram instaladas em duas das melhores cabines da primeira classe, com porta de comunicao.
A bagagem de Kelda era ridiculamente pequena, ao lado das numerosas malas onde tinha colocado os vestidos de Yvette, os chapus, as sombrinhas e muitas outras coisas 
que a francesinha fez questo de comprar na ltima hora. Yvette disse  sra. Gladwin, em tom de desafio:
- ] que sou obrigada a ir para esse maldito lugar no fim do

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mundo, no pretendo ter vergonha de minha aparncia, de modo que vou fazer vrias compras.
Por uma vez, a diretora no teve argumentos para tentar impedi-la. Como as professoras no dispunham de tempo livre, Kelda acompanhava Yvette, quando esta ia fazer 
compras. Iam numa carruagem fechada, alugada, porque Yvette no tinha licena de usar os transportes pblicos.
Era to excitan, que Kelda se viu rezando,  noite, para que nada acontecesse que a impedisse de ir para o Senegal, embora percebesse que, a cada dia que passava, 
Yvette ficava mais triste.
- vou ficar enterrada... enterrada viva - dizia ela, inmeras vezes.
Yvette escreveu a todos os parentes de Paris, suplicando-lhes que interferissem em seu favor, mas responderam que nada podiam fazer, porque o tio Maximus era seu 
tutor.
Depois de ler as cartas, Kelda achou que todos eles estavam impressionados com a importncia e a fortuna de lorde Orsett.
- Por que ele foi morar no Senegal?
- No fao ideia. A no ser que tenha sido para ser diferente de todo mundo - respondeu Yvette.
- Ele j havia estado l, antes de sua tia morrer?
- No creio. Ouvi dizer que a tia Ginette era muito bonita e gostava de festas e de outros divertimentos.
- Parece estranho que ele a tenha levado para a frica.
- Tudo a respeito do tio Maximus  estranho. No posso compreender por que meus pais o nomearam meu tutor.
- Provavelmente, porque acharam que ia tomar bem conta de voc e estava em condies financeiras para isso.
- Voc est sempre falando em dinheiro. Esqueceu-se de que sou uma herdeira rica?
- S depois que seus pais morreram - observou Kelda, suavemente.
Yvette no respondeu, porque detestava falar no tio. Kelda sabia que a amiga estava cada vez mais apreensiva,  medida que se aproximava a data da partida.
Tinha muitas perguntas a fazer, mas, como sabia que iam perturbar Yvette, achou melhor esperar at terem iniciado a viagem ao

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encontro do tio misterioso, que morava numa parte da frica que tambm parecia misteriosa.
Havia lido todos os guias tursticos que encontrara na escola, mas, embora o Senegal fosse oficialmente uma colnia francesa desde

1848, existia pouca coisa a respeito, nos livros de histria, que eram predominantemente ingleses.
Os de geografia contentavam-se em mostrar um mapa da rea, dizendo que estava sob protetorado francs.
Apesar disso, Kelda descobriu que, quatro anos antes, tinha havido um decreto criando o Governo Geral da frica Ocidental Francesa. Descobriu tambm que o Senegal 
tinha o equivalente ao conselho de um departamento francs, mas no sabia bem o que isso significava.
Gostaria que algum lhe explicasse essas coisas antes de chegar ao Senegal. Era nessas horas que sentia falta dos conhecimentos do pai, mais do que em qualquer outra 
ocasio.
"Papai ficaria emocionado, se soubesse que vou de novo fazer uma explorao. "
Imaginou, desesperada, quanto tempo tal explorao ia durar. A sra. Gladwin foi muito firme, dizendo que Kelda devia voltar para o colgio assim que Yvette estivesse 
instalada em casa do tio. com sua voz desagradvel, acrescentou:
- Ponha na cabea, Kelda, que vai apenas como acompanhante de mademolselle e s porque no encontrei mais ningum. No se intrometa nos assuntos da casa de lorde 
Orsett e volte para c o mais depressa possvel. Espero-a em janeiro, sem falta.
Kelda inclinou a cabea, concordando, porque no podia fazer outra coisa. Mas ia rezar todas as noites para nunca mais voltar  escola e descobrir um jeito de ficar 
em Dacar, ou em qualquer outra parte do mundo onde pudesse encontrar um modo de ganhar a vida. Talvez houvesse alguma escola onde pudesse ensinar, ou mesmo uma loja 
para trabalhar como vendedora.
Depois, riu, pensando nos bazares e nos mercados que tinha visitado com os pais. Sabia que a ideia de uma mulher branca trabalhar l como empregada era impraticvel, 
para no dizer impossvel.
Mas agora estava num navio, indo de um porto para outro; portanto, achava-se numa "terra de ningum", onde estava livre de res25

tries, a no ser as que lhe eram impostas por seu prprio senso do que era apropriado.
A sra. Gladwin, naturalmente, escreveu  companhia de navegao, procurando algum que pudesse tomar conta de Yvette.
O comissrio de bordo apresentou-a a um casal idoso, um ministro metodista e a esposa, que voltavam para a frica aps uma visita aos filhos na Inglaterra.
Como tinham poucas posses, ficaram gratos  congregao por ter levantado o dinheiro das passagens. E, como eram pessoas de idade, a congregao fez questo de que 
viajassem de primeira classe.
Ficaram atnitos quando a sra. Gladwin os abordou como um furaco, mas imediatamente concordaram com o que ela lhes pedia.
Kelda logo percebeu que eram discretos e muito tmidos para interferir com qualquer pessoa; muito menos, com uma jovem bonita e obviamente aristocrata como Yvette.
Devido s roupas simples e feias de Kelda, os dois a tomaram por uma criada e conversavam com ela com mais facilidade. Mas, aps dois dias de viagem, ambos se sentiram 
mal e Kelda se viu na posio de cuidar deles, mais do que eles de Yvette.
Na primeira noite, a francesinha comeou a se interessar pelos passageiros.
- Gente montona, creio eu - disse a Kelda. - com exceo de um rapaz, que parece interessante.
- Quem  ele?
Tinha sido anunciado que os passageiros podiam se sentar onde quisessem e que os lugares  mesa do capito e dos oficiais superiores seriam marcados no dia seguinte.
Tendo viajado bastante, Kelda sabia que era uma precauo por parte do capito, para no se esquecer de algum passageiro importante que teria direito a ficar  sua 
mesa.
Quando entraram na sala de jantar, Kelda perguntou ao comissrio-chefe se ela e Yvette poderiam ficar a uma mesinha para duas pessoas.
- Por que pediu essa mesa? - quis saber Yvette, assim que se sentaram.
- Para termos uma chance de olhar em volta e ver quem devemos evitar.

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Yvette riu.
No pensei nisso, mas vejo que h muitas pessoas que parecem pertencer a essa categoria.
Meu pai costumava rir dos passageiros cacetes que contam a mesma histria inmeras vezes, desde Portsmouth at Port Said. E mame fugia das mexeriqueiras que zombavam 
das pessoas pouco atraentes e diziam coisas desagradveis sobre elas.
Yvette tornou a rir.
- Isso se aplica a mim!
- Nesse caso, tenha cuidado, por favor. No se esquea de que sou responsvel por voc; caso se comporte mal, eu  que serei considerada culpada.
- Quem vai saber como me comporto? Alm do mais, se eu tiver m reputao, quando chegar a Dacar, talvez meu tio me mande para Paris, em desgraa.
- No confie muito nisso. Por favor, Yvette, leinbre-se de que ele ficaria furioso comigo e eu seria mandada, no para Paris, mas de volta  escola da sra. Gladwin.
Yvette fez uma careta.
- ' Precisamos evitar isso. Tenho a firme inteno de conserv-la comigo, diga o tio Maximus o que disser.
Essa declarao no fez com que Kelda ficasse feliz como deveria ficar.
Pelo que tinha ouvido dizer, lorde Orsett faria exatamente o que quisesse fazer, obrigando todo mundo a obedecer. Se quisesse que Kelda voltasse, ela voltaria, fosse 
qual fosse o desejo da sobrinha. Mas ficou rezando para que acontecesse alguma coisa que a salvasse de voltar para a Inglaterra.
Yvette tinha notado um rapaz bonito, na primeira noite, e Kelda percebeu que o rapaz tambm parecia ter notado a francesinha. Poderia ter sido mero acaso, mas achou 
que tinha havido alguma manobra, quando, no almoo do dia seguinte, viu que Yvette tinha um lugar reservado ao lado do rapaz,  mesa do capito.
Ficaram sabendo que se chamava Rmy Mendes, mas, durante o almoo, a conversa foi sobre coisas triviais, como o tempo, a velocidade do navio e o fato de haver poucas 
pessoas jovens a bordo, o que ia dificultar as competies esportivas.
- Terei que fazer meus exerccios andando pelo tombadilho 97

disse monsieur Mendes. - Mas preferia jogar badminton ou atirar discos, embora ache que esse esporte faz calos nas mos.
- Sei jogar badminton, embora no muito bem - respondeu Yvette.
- Ento, vou desafi-la para uma partida - disse Mendes, convite pelo qual a moa obviamente esperava.
Logo depois do almoo, ela e Kelda foram para o salo, pois o mar estava bravo e fazia frio para irem para o tombadilho.
Kelda no se admirou, ao ver que, assim que se sentaram e pediram caf, Mendes se aproximou e perguntou se podia ficar com elas.
Yvette apresentou Kelda. Ao olhar de relance para suas roupas, ele deixou claro que a considerou apenas uma acompanhante paga. Depois de um cumprimento formal, deu 
toda a ateno a Yvette.
- Agora podemos conversar - disse, de um jeito que significava que era apenas com a francesinha que se preocupava.
Seus olhos escuros brilharam e no havia dvida de que se sentia atrado.
"No sei se eu deveria fazer alguma coisa a esse respeito", pensou Kelda. Mas, francamente, no sabia o qu.
- Vai para a Cidade do Cabo? - perguntou Mendes. - Ouvi dizer que  um lugar muito interessante, mas nunca estive l.
- No. vou para Dacar.
- Para Dacar? Mal posso acreditar! Voc disse Dacar?
- vou morar com meu tio. Mas garanto-lhe que preferia ir para a Cidade do Cabo.
Kelda achou que a amiga estava sendo indiscreta, contando seus aborrecimentos a um estranho.
- Pois prefiro que v para Dacar, porque  para l que vou! Mas no posso acreditar que uma moa bonita como voc v morar num lugar to pouco civilizado.
- Mora em Dacar? - perguntou Yvette.
- Apenas temporariamente, graas a Deus! Acontece que nos prximos trs meses vou ser ajudante-de-ordens diplomtico do governador-geral.
Yvette bateu palmas.
- Mas  maravilhoso! Ento, vou v-lo!
- Pode ter certeza disso. Quem  seu tio?
- Lorde Orsett.

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De novo, Mendes demonstrou surpresa.
- Lorde Orsett? Mas ele nunca recebe visitas! Jamais imaginei que tivesse uma sobrinha como voc.
- Fale-me de Dacar. Como deve imaginar, no tenho a mnima vontade de morar l, quando poderia estar em Paris.
- Compreendo. Tambm sinto falta de Paris. Felizmente, j terei voltado para l, -na primavera.
- Os castanheiros estaro em boto nos Campos Elseos - disse Yvette, com tristeza.
- E o Bois de Boulogne estar florido!
- Haver bailes e festas - continuou Yvette, em tom desejoso.
- Eu tinha planejado danar at de madrugada.
-  o que devia fazer. Mas como  possvel que v morar em Dacar?
- Lorde Orsett  meu tio por afinidade e tambm meu tutor.
- Ouvi dizer que a esposa era francesa. Provavelmente, por isso foram morar em Dacar, mas sua tia deve ter detestado aquilo, tanto quanto voc vai detestar.
- Que hei de fazer? Diga-me o que poderei fazer!
- Prometo-lhe uma coisa: farei todo o possvel para que sua estadia em Dacar seja o mais agradvel possvel.
- Mas voc vai ficar l pouco tempo.
- At meados de maro; at l, muita coisa pode acontecer.
Esse modo de falar fez com que Yvette ficasse um tanto encabulada. Baixou os olhos, as sobrancelhas muito escuras sombreando a pele alva.
" muito bonita", pensou Kelda. "No  de admirar que o rapaz no tire os olhos dela. "
Ao mesmo tempo, ficou imaginando o que lorde Orsett diria, se as visse chegando acompanhadas por um rapaz.
Via-se claramente que Mendes estava fascinado por Yvette e ela por ele.
Na primeira noite, quando se preparava para dormir, a francesa comentou:
- Ele  encantador, fascinante e inteligente. - Depois, com expresso sonhadora, acrescentou: - Acho que estou ficando apaixonada!
- Por favor, Yvette, tenha cuidado! No deve ser precipitada,

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em tais assuntos. Nada sabemos sobre monsieur Mendes. Talvez seu tio no o aprove.
- Tenho certeza de que o tio Maximus s aprova a si mesmo! Mas vou tentar descobrir tudo o que voc quer saber. Monsieur Mendes me pediu para me encontrar com ele 
no tombadilho superior, amanh cedo. Se no estiver chovendo, podemos nos sentar num lugar protegido e conversar, sem sermos vigiados por essas gatas velhas que 
nos observaram o tempo todo, durante o jantar.
Kelda achou natural que as velhotas sentadas  mesa do capito erguessem as sobrancelhas, ao notar o modo como os dois jovens conversavam, s dando ateno um ao 
outro.
Kelda se viu ento obrigada a conversar com um comerciante idoso, que lhe contou que ia sempre ao Senegal para comprar amendoim, o nico artigo valioso que, no momento, 
eles tinham para exportar.
O homem era meio surdo. Embora tivesse curiosidade sobre o Senegal, Kelda achou embaraoso ter que fazer perguntas em voz alta vrias vezes, at o velho entender 
o que ela queria saber.
Aps o jantar, ficou consternada, ao notar Yvette e Mendes desaparecerem. No podia perguntar a ningum para onde tinham ido. Embora andasse de uma sala  outra, 
no viu sinal dos dois. Depois de algum tempo, retirou-se para a cabine, conformada.
Tinha certeza de que a sra. Gladwin desaprovaria tal conduta, mas disse a si mesma que "o que os olhos no vem o corao no sente".
Mas, quando Yvette apareceu, depois da meia-noite, Kelda a repreendeu.
- Voc podia ter me dito para onde ia.
- Eu tambm no sabia. Monsieur Mendes me convidou para irmos  sala de leitura, onde quase ningum vai.
- No pensei em procurar l.
- Estvamos nos escondendo de voc tambm - disse Yvette, maliciosa.
- Sabe que no devia fazer isso! - censurou-a Kelda, em tom benevolente, sabendo que a amiga no a ouviria.
- Estou me divertindo - disse a garota, sentando-se na beirada da cama.


- Naturalmente, minhas tias francesas falaram de um casamento brilhante para mim, com um rapaz descendente de uma das grandes famlias da Frana. Chegaram mesmo 
a pensar no jovem duque de Fneon.
- Se isso for verdade, no se envolva com monsieur Mendes.
- Morando com o tio Maximus, no  provvel que tenha contato com o duque ou com qualquer nobre francs.
- No posso acreditar que seu tio queira que fique prisioneira em Dacar para sempre. Talvez ele tambm esteja pensando em seu futuro e pretenda conversar com voc 
a respeito.
Sabia que os casamentos, na Frana, eram arranjados pelas famlias, principalmente quando se tratava de uma jovem rica e bemnascida como Yvette. Achava esse costume 
desagradvel e at mesmo brbaro, mas nada tinha dito a Yvette sobre isso, no querendo perturb-la. Sabia tambm que, no que dizia respeito a ela, Kelda, no havia 
chance de casamento, arranjado ou no.
Nas atuais circunstncias, devia tentar evitar que Yvette se apaixonasse por um rapaz que no havia sido aprovado por seus parentes. S no tinha ideia de como fazer 
isto.
Nos dois dias seguintes, ela se viu sentada sozinha no salo ou no tombadilho, a no ser quando procurava a companhia do ministro metodista e da esposa. Era evidente 
que nenhum dos outros passageiros a considerava bastante importante para pelo menos tentar travar conhecimento.
Kelda sabia que isso se devia s suas roupas. Tinha trazido apenas os vestidos de algodo cinza que era obrigada a usar na escola. Como concesso, a sra. Gladwin 
lhe deu uma capa preta de l grossa que a cobria completamente. Era tambm obrigada a usar o mesmo chapu preto de palha, do modelo dos que tinha no orfanato. Era 
muito feio e lhe escondia o rosto, sendo amarrado sob o queixo com fitas pretas ordinrias.

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Luvas pretas e botas curtas completavam seu traje. Alm disso, possua apenas uma valise to barata e gasta que at mesmo os carregadores a olhavam com desprezo!
Kelda no perdia tempo tendo pena de si mesma. Podia ouvir o mar, sentir o vento; sabia que se dirigiam para um lugar ensolarado, e isso lhe causava grande prazer.
Parecia-lhe que tinha sentido frio no corao, desde o dia em que os pais morreram, at agora, quando estava escapando das prises onde a encarceraram.
Depois de oito anos sem se alimentar direito, agora tinha no apenas bastante comida, como muitas opes, o que lhe dava uma sensao de alegria. Era tambm um luxo 
no precisar se levantar s cinco da manh, como aconteceria tanto no orfanato quanto na escola.
- vou engordar, se trabalhar to pouco e comer tanto - disse a Yvette. - So coisas que no fao h anos.
- Pois eu no tenha nem um pouco de fome. Essa  uma das razes de achar que estou apaixonada.
Depois de atravessarem a baa de Biscaia, quando se dirigiam para a costa ocidental da frica do Norte, Yvette no pensava mais que estava apaixonada. Era evidente 
que amava, pelo brilho de seus olhos e pela alegria que demonstrava, sempre que se encontrava em companhia de Rmy Mendes.
Kelda desistiu de lhe pedir que tivesse cuidado e no mostrasse to claramente sua afeio pelo rapaz. Mas era perda de tempo. Quando Yvette entrou na cabine, a 
uma da manh, Kelda percebeu o que tinha acontecido.
- Estou noiva! Rmy e eu vamos casar em Paris, na Pscoa! Kelda ficou de respirao suspensa.
- Mas, e se seu tio no der licena para o casamento?
- Por que haveria ele de impedir? Pretendo ser a esposa do futuro primeiro-ministro da Frana, e at mesmo o tio Maximus deve ficar impressionado com isso.
- Suponhamos que fique zangado por voc ter tomado uma deciso to importante sem consult-lo. Talvez no aprove monsieur Mendes.
- Rmy disse que vai seguir os passos do pai, que  muito importante na poltica. E agora que temos conversado bastante, desco33

bri que  muito mais rico do que eu pensava! Teremos uma casa em Paris e um castelo na propriedade do pai dele, que  enorme! Oh, Kelda, estou to feliz!
Falou com tanto entusiasmo que a amiga a abraou.
- Estou contente, querida, muito contente! Mas a verdade  que tenho tanto medo de seu tio quanto voc!
- No tenho mais medo do tio Maximus. Rmy disse que vai tomar conta de mim, me proteger e me amar durante toda a vida. O que mais posso desejar?
- Sim, o que mais?
Ao mesmo tempo, estava preocupada. Tudo o que sabia a respeito de lorde Orsett fazia com que achasse que ele no ia gostar de decises tomadas sem aprovao; principalmente 
uma que significava que sua pupila ia ficar morando com ele durante muito pouco tempo.
- Ns duas iremos para, Paris no princpio do ano, porque pretendo comprar um enxoval espetacular, e isso, como voc sabe, toma tempo.
- Nos duas?
- Voc vai comigo. Sabe que eu no poderia passar sem voc. E vai gostar de Paris, garanto.
- O que seus parentes diro?
- No precisamos mais nos preocupar com meus parentes. S com Rmy, E ele est grato pelo trato que voc tem demonstrado.
No dia seguinte, depois de passar a manh inteira com o noivo, Yvette entrou na cabine de Kelda como um furaco, pouco antes do almoo.
- Rmy teve uma ideia e acho que  muito sensata!
- Que ideia? - perguntou Kelda, largando o livro que estava lendo.
- Que voc precisa mudar de aparncia! Ele tem certeza de que ouviu falar de seu pai. Seja como for, ficou muito impressionado quando soube que ele fez conferncias 
na Sociedade Geogrfica, que tem muito prestgio na Frana. Rmy ficou atnito com a maneira como a sra. Gladwin a tratou e com as roupas que ela achou que voc 
devia usar. Disse que vamos precisar de sua ajuda, Kelda, para

34

enfrentar o tio Maximus, de modo que voc deve parecer uma pessoa importante, cuja opinio pese na balana.
Como posso fazer isso? - Kelda perguntou de novo, sem compreender o que a amiga queria dizer.
- Rmy falou que pessoas como meu tio ficam tremendamente impressionadas pelas aparncias, e acho que eu devia ter pensado nisso antes, que voc use meus vestidos, 
para parecer a dama que realmente .
- Mas... no posso fazer... isso.
- Por que no?
- Porque os vestidos so seus e lhe pertencem, e... o que diria a sra. Gladwin?
Yvette riu.
- A sra. Gladwin est a quilmetros de distncia. Pessoalmente, pouco ligo ao que ela possa dizer. Tenho montes de vestidos, e Rmy est certo: tio Maximus precisa 
encar-la como igual. Do contrrio, no dar ateno ao que voc disser.
- Duvido que me d ouvidos, seja l como for.
-  importante que ele a oua. Pelo menos,  essa a opinio de Rmy. Afinal, estou indo para Dacar sob sua guarda.
Dali a um momento, Kelda disse:
- Mesmo que eu mude de aparncia, acredita que a sra. Gladwin no contou a seu tio exatamente quem sou e que posio ocupo na escola?
- Garanto que contou - respondeu Yvette, com um sorriso malicioso. - E voc deve estar lembrada de que, quando partimos, ela me entregou uma carta para o tio Maximus. 
 uma pena que ele no v receb-la.
- O que quer dizer com isso?
- vou rasg-la imediatamente e atirar no mar, pela vigia da minha cabine.
- No pode!  uma carta pessoal.
- Garanto que est cheia de mentiras. Mas nenhuma de ns saber ao certo, porque no vou ler, nem deixar que voc leia. Isso s faria com que ficasse infeliz.
Saiu da cabine, e Kelda ouviu-a remexendo na cabine ao lado.
- Encontrei a carta! - exclamou Yvette, dali a momentos.

35

jff
Yvette voltou com uma cesta de papis na mo.
- No vou abrir minha vigia hoje  noite, mas a carta j est reduzida a pedacinhos e vou jog-los no mar, assim que amanhecer. Ningum saber o que foi que o Drago 
escreveu a seu respeito.
Kelda encarou-a de olhos arregalados.
- Acho que ... errado.
- Pelo contrrio,  certo. J que Rmy acha que  certo, no se fala mais nisso. Voc est livre, Kelda; livre daquela velha horrvel e de tudo o que aconteceu no 
passado, desde a morte de seus pais.
- No posso... acreditar - disse Kelda, com lgrimas nos olhos. Yvette abraou e beijou a amiga.
- Gosto tanto de voc! E, se vou comear uma nova vida, voc tambm vai! Ambas seremos felizes. Agora vou dormir. Amanh.
comearemos a planejar meu enxoval. Quero ficar linda, linda, para
Rmy.
Na manh seguinte, quando Kelda se levantou, usando a camisola grosseira de algodo que a sra. Gladwin lhe havia dado, Yvette entrou em sua cabine.
- Eu estava excitada demais para continuar dormindo. Escolhi uma poro de roupas para voc usar, at podermos comprar outras coisas.
- Acho que no posso aceitar.
Mas Yvette no lhe deu ateno. Trouxe uma pilha de vestidos, roupas de baixo, camisolas. Tanta coisa, que Kelda ficou pasma e achou difcil encontrar palavras para 
agradecer.
- Tenho mais do que o suficiente para minhas necessidades atuais - disse Yvette. - Para falar a verdade, escrevi para minha prima, em Paris, que sempre me ajudou 
a escolher meus vestidos, pedindo-lhe para mandar, o mais depressa possvel, os vestidos de que vou precisar em Dacar.
- Mas comprou dzias, em Londres.
- As roupas de Londres no so to elegantes como as de Paris. Mas, para voc,  bom que eu tenha comprado tanta coisa.
Isso era verdade, pensou Kelda, examinando as roupas que Yvette tinha trazido. Mal podia acreditar que, aps tantos anos, ia finalmente parecer o que chamava de 
"ser humano".
As duas eram da mesma altura, mas Kelda era muito mais magra,

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de modo que comeou imediatamente a apertar os vestidos na cintura.
Embora Yvette insistisse para que a amiga aceitasse dois de seus belos espartilhos franceses, na realidade no eram necessrios, porque, aps tantos anos de trabalho 
intenso, correndo de um lado para outro, subindo e descendo escadas, Kelda no tinha nem um pingo de gordura a mais; os seios eram firmes, e o corpo, perfeito, apesar 
da magreza.
Quando finalmente ficou pronta, com as roupas de baixo enfeitadas de renda, meias de seda (coisa que nunca tinha usado) e um vestido que havia custado uma fortuna 
na Rue de Ia Paix, Kelda achou que no ia ter coragem de sair da cabine.
- No posso aparecer assim - disse, em pnico. - O que as pessoas vo pensar?
- Que pessoas? Duvido que aquelas velhas fsseis prestem ateno a voc! Mas est muito atraente, Kelda; se Rmy a preferir a mim, juro que a matarei!
Kelda riu.
- Acho muito pouco provvel. Mas... Yvette, no sei como lhe agradecer.
Seus olhos se encheram de lgrimas. No estava emocionada apenas por causa das roupas bonitas. Depois de tanto tempo sendo tratada como uma menina que vivia "da 
caridade pblica", a transformao afetou at mesmo seu esprito: sentiu-se como uma borboleta que saa da crislida.
Yvette abraou-a.
- Se chorar, vai estragar todo o efeito e quero que Rmy fique embasbacado com a sua aparncia. Afinal, a ideia foi dele. Vamos procur-lo imediatamente. Est  
minha espera.
Constrangida como nunca na vida, Kelda acompanhou a amiga at a sala onde Rmy as esperava.
Quando entrou, viu os olhos dele se arregalarem de espanto. DePois, Rmy estendeu as mos.
- C'est magnifique! Dou-lhe meus parabns, Yvette. Kelda est exatamente como eu queria que ficasse.
- Vocs dois so... muito bons... - murmurou Kelda.
Sentem-se - disse Rmy. - Vamos celebrar duas coisas: em Primeiro lugar, srta. Lawrence, vamos beber ao nosso futuro, de

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Yvette e meu. Depois, vamos beber ao seu. Tenho a impresso de que vai ser muito diferente do que pensou que seria, quando veio para bordo.
- Se for mesmo diferente, ser inteiramente graas a voc.
- Aceitarei o crdito, depois que seu casamento se seguir ao nosso - respondeu o rapaz.
Yvette bateu palmas.
- Voc  to inteligente! Claro que, quando formos para Paris, vamos achar um noivo para minha, querida Kelda, um rapaz muito distinto e muito rico.
- Assim como eu! - exclamou Rmy, com um brilho malicioso no olhar.
- No pode haver ningum to maravilhoso como voc!
Os namorados tinham esquecido por um momento que Kelda estava presente. Quando ergueu sua taa, a moa achou que nunca tinha visto duas pessoas to felizes.
- Parece um conto de fadas - disse ela a Yvette, mais tarde, quando se preparava para o jantar, usando um vestido que lhe pareceu belssimo.
- Claro que . E Rmy  o prncipe encantado. Eu sou, no apenas a princesa dele, como sua madrinha, Kelda!
- Eu certamente poderia ir a um baile com este vestido.
- E ir, claro que ir. Quando formos para Paris, haver baile todas as noites. Rmy gosta de danar tanto quanto eu. Disse que, quando for anunciar nosso noivado, 
o pai dar o baile mais espetacular que Paris jamais viu.
Havia muito que planejar. Enquanto o navio percorria a costa da frica, Yvette se ocupava da lista de compras que pretendia fazer em Paris.
- Voc no vai precisar de vinte sombrinhas! - protestou Kelda.
- Duvido que vinte sejam suficientes. Afinal, quero uma para cada vestido de vero.
S quando estava sozinha, Kelda se preocupava com lorde Orsett. Mas agora ele no parecia to terrvel como quando tomaram o navio em Southampton. Kelda tinha chorado 
todas as noites, pensando nas recomendaes da sra. Gladwin, isto , que devia voltar para a esi cola, assim que lorde Orsett no precisasse mais dela.
Por outro lado, quando pensava seriamente no assunto, temia que

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lorde Orsett achasse que Yvette era muito jovem para saber o que queria. A amiga parecia mais velha do que muitas moas de sua idade, porque tinha levado vida social 
em Paris e tambm porque era inteligente. Mas, na realidade, ainda no havia completado dezoito anos. Kelda tinha a desagradvel impresso de que isso ia significar 
mais para o tutor do que qualquer outra coisa.
Estava certa de que ele no era o tipo de pessoa que analisa a fundo o carter de outra, e sim, que julgava todo mundo superficialmente.
Era essa tambm a opinio de Rmy a respeito de lorde Orsett, embora o rapaz tivesse bastante tato para no falar abertamente. Se pensasse o contrrio, no teria 
insistido tanto para que Kelda mudasse de aparncia.
Mas a moa lhe estava muito grata por isso.
Agora no precisava pentear os cabelos num coque na nuca, como a sra. Gladwin exigia, e sim, fazer um penteado moderno, bem feminino. Sabia que estava parecida com 
a me.
Pela primeira vez, desde que se encontrava sozinha no mundo, sentia-se livre, podendo agir como bem entendesse.
Antes, havia sido obrigada a agir como uma menina que vivia da caridade pblica, no orfanato, no devendo demonstrar que tinha tido melhor educao do que as outras 
crianas. O mesmo aconteceu na escola da sra. Gladwin, onde era pouco mais do que uma criada que devia respeitar as pessoas que se julgavam superiores a ela.
Agora que podia conversar de igual para igual com Rmy e com Yvette, sentia que os anos de infelicidade tinham acabado e que era de novo a filha querida dos pais. 
Parecia que estava viajando com eles numa expedio, uma aventura cheia de risos e de alegria.
Todas as noites, quando fazia suas oraes, agradecia a Deus pela amizade de Yvette, que considerava uma chance de escapar  servido em que vivia. Pedia para que 
essa situao agradvel continuasse e para que lorde Orsett no a mandasse de volta  Inglaterra, antes que tivesse chance de encontrar algum outro tipo de trabalho.
"E, por favor, meu Deus, fazei com que eu possa ir para Paris com Yvette. Por favor... "
Era um grito que vinha do fundo do corao, porque parecia impossvel confiar nessa felicidade recm-encontrada e to inesperada.

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Sabendo que seria eternamente grata a Yvette, rezava por ela tambm.
"Est apaixonada, meu Deus. Fazei com que ela e Rmy sempre se amem. Por favor, fazei com que lorde Orsett permita que casem logo. "
Fazia essa orao no apenas em sua cabine,  noite, como sempre que via os dois juntos.
O amor deles se tornara to forte, que no tinham olhos a no ser um para o outro.
Havia n rosto de Rmy, quando fitava Yvette, uma expresso que no podia deixar de ser sincera. Quanto  francesinha, Kelda percebia que o amava com todas as fibras 
de seu ser.
"So felizes. Encontraram o que todas as pessoas procuram: sua outra metade. E nada poder separ-los. "
Ao pensar nisso, sentiu-se como Joana d'Arc, brandindo a espada, pronta a lutar pelo que achava justo e verdadeiro.

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CAPITULO in
O navio chegou a Dacar no princpio da tarde. Fazia calor, mas havia uma brisa que encrespava as guas e diminua a presso.
Kelda tinha a impresso de que o sol dourado penetrava em seu corpo, fazendo desaparecer qualquer vestgio de frio e despertando uma nova vitalidade.
Agora que chegara a hora de desembarcar, tinha a impresso de que no teria coragem de o fazer. Queria continuar ali para sempre, buscando novos horizontes. O fato 
de sua vida ter mudado, desde que viera para bordo, fez com que sentisse que estava abandonando um lugar que lhe dera a segurana de um lar.
Alm do mais, como se aproximava a hora de Yvette encontrar o tutor, Kelda sabia que todos estavam apreensivos e um tanto nervosos.
Embora Yvette aparentasse calma, dizendo que no tinha mais medo porque estavam com Rmy, Kelda percebia que tambm o rapaz parecia nervoso.
No havia dvida de que ele tinha muito a oferecer  moa com quem pretendia casar. Ao mesmo tempo, sabendo como os aristocratas franceses eram esnobes, Kelda achava 
que a famlia Villon ia consider-lo socialmente inferior a Yvette.

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A questo era: qual seria a opinio de lorde Orsett?
Para Kelda, era to excitante estar na frica e ter a oportunidade de visitar um pas que no conhecia, que desejou ardentemente que o pai pudesse estar a seu lado.
A costa por onde passavam parecia mais plana e mais baixa do que esperava; do tombadilho, avistava praias- de areias douradas, com coqueiros.
Quando se aproximaram de Dacar, viu que a cidade se projetava pelo Atlntico e que havia muitas casas, com rvores protetoras  volta.
O capito lhe disse que Dacar era um porto natural e de guas profundas. Falou tambm da ilha de Gore, que ficava a um quilmetro e meio da costa e era tristemente 
famosa pelo comrcio de escravos, origem de sua riqueza.
Kelda estremeceu, ao ouvir isso, porque tinha lido sobre os horrores da escravatura e sobre a misria dos que eram capturados e atirados em pores de navios, para 
depois serem vendidos em vrias partes do mundo.
Procurou no pensar no sofrimento dessa pobre gente e olhar para Dacar, enquanto o navio entrava lentamente no porto.
Yvette e Rmy vieram juntar-se a ela, na amurada, e tambm ficaram olhando para a multido no cais.
- L est a carruagem de lorde Orsett,  espera - disse Rmy, em voz baixa.
Yvette e Kelda olharam para o ponto que ele indicava e viram uma carruagem aberta, muito elegante, puxada por dois cavalos, com um toldo de algodo branco, com franjas, 
como proteo contra o sol.
O cocheiro usava uma libr enfeitada, que parecia imprpria para aquele calor. Um lacaio, com a mesma libr, estava de p no meio da multido, olhando para o navio 
e procurando identificar as pessoas que tinham vindo esperar.
- Meu tio est l? - perguntou Yvette, cautelosamente.
- No o vejo - respondeu Rmy. - E seria pouco provvel que ele viesse ao cais, fosse qual fosse o hspede que chegasse.
Isso fez com que Kelda se lembrasse de que diziam que lorde Orsett era um recluso. Teve a desagradvel sensao de que ele j

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as atingia de alguma forma, estragando o prazer que tiveram na viagem.
Kelda se sentira feliz e alegre porque agora se julgava diferente. Sempre que colocava um dos vestidos bonitos de Yvette, achava que mudava no apenas sua aparncia, 
como tambm seu carter e sua personalidade.
Agora, no reprimia as coisas inteligentes que tinha para dizer; agora, podia rir sem receio de ser repreendida e, melhor ainda, tinha confiana em si.
Como Yvette era muito boa, Kelda no temia mais o futuro, nem temia perder o emprego.
Estava envergonhada por ter sido fraca e humilde durante tanto tempo. Mas houvera a ameaa de ser jogada na rua pela sra. Gladwin, sem referncias e sem dinheiro, 
caso a diretora assim o quisesse.
Era fcil dizer que, pelo fato de ser inteligente, ela poderia encontrar outro emprego. Mas quem ia querer uma menina que tinha vivido da caridade pblica, sem nada 
que a recomendasse, a no ser o que pudesse dizer a respeito de si mesma?
Agora, tudo havia mudado. Yvette era sua amiga; Kelda se vestia como sua me teria gostado que se vestisse; a no-ser que os planos fossem por gua abaixo, Yvette 
e Rmy iam tomar conta dela, e j no se sentia s no mundo.
Na vspera,  noite, quando fizeram o ltimo brinde ao futuro, Kelda disse:
- Vocs so muito bons para mim. Estava emocionada. Rmy sorriu.
- Queremos ser bons para voc, Kelda. E sempre serei grato pelo que fez por minha futura esposa.
- Sabe que gostamos de voc, Kelda. Quando formos para Paris, Rmy tem um plano; est certo de que uma de suas irms vai querer que voc ensine ingls aos filhos.
Kelda a custo conteve as lgrimas.
-  como entrar num lugar ensolarado, depois de ter ficado durante anos no meio de um nevoeiro.
-  assim que vai ser seu futuro, cheio de sol - disse Rmy. Mas no se esquea de que amanh vai conhecer lorde Orsett.
Houve um momento de silncio, enquanto os trs refletiam sobre isso.

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- Voc vai conosco at a casa? - perguntou Yvette a Rmy. Nesse caso, encontrar meu tio no seria to assustador.
- Tenho certeza de que seria um erro - observou o rapaz. Ele acharia uma impertinncia, de minha parte. vou fazer uma visita protocolar, no dia seguinte ao de nossa 
chegada. Creio que no seria sensato contar que estamos noivos, at eu pedir licena a seu tio para cortej-la.
- Farei o que voc achar melhor, Rmy.
Yvette falou em voz baixa e Kelda percebeu que os olhos da amiga tinham uma expresso preocupada.
Agora, enquanto o navio se aproximava do cais, Yvette agarrou o brao de Rmy.
- Acho melhor descermos para nossas cabines, para estarmos prontas para desembarcar - disse Kelda. - E no se esquea de que precisamos agradecer aos bons velhos 
que tomaram conta de voc.
- Vamos agradecer-lhes por no terem tomado conta.
Apesar da ironia, fez um pequeno discurso que encantou o casal de velhos. Depois de se despedir apaixonadamente de Rmy, ela e Kelda esperaram na cabine, at ouvirem 
uma batida na porta.
Quando a abriram, viram no corredor um senhor de idade, corretamente vestido, que disse ter vindo a mando de lorde Orsett, para acompanh-las para terra, e que cuidaria 
da bagagem.
As duas moas desceram pela escada que levava ao cais, Yvette olhando por sobre o ombro para ver Rmy mais uma vez. A multido se abriu para lhes dar passagem at 
a carruagem.
Depois que aquele senhor as ajudou a subir, o lacaio pulou para a boleia e partiram.
Enquanto seguiam pela rua arborizada de ambos os lados, Kelda teve oportunidade de observar o povo e perceber como era diferente do que tinha visto em Argel.
A primeira coisa que notou foi a variedade de cores dos volumosos boubous das nativas. Vestidas com cores brilhantes (azul, vermelho, verde, cor-de-rosa), pareciam 
grandes flores, com turbantes coloridos na cabea, ps descalos e pulseiras barulhentas nos pulsos.
Kelda achou que, se as mulheres eram impressionantes, os homens eram magnficos. Muito altos, com ombros largos, quadris estreitos, caminhavam com uma graa atltica, 
que os tornava diferentes de todos os nativos que conhecia de outras partes do mundo.

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"Papai poderia me contar muita coisa sobre eles e as diferentes tribos", pensou.
Ficou imaginando se lorde Orsett responderia s perguntas que estava ansiosa para fazer.
Seguiram em silncio durante algum tempo, at as casas ficarem para trs. Iam agora por uma estrada poeirenta, com o mar  esquerda. O terreno se elevava, at que 
apareceram rochedos que chegavam  beira da gua.
De repente, Kelda viu  frente um prdio que parecia uma mesquita. Era cercado de rvores, exceto no lado que dava para o mar. Quando a estrada acabou, dando num 
grande porto de ferro forjado com pontas douradas, Kelda soube que tinha chegado ao que Yvette chamava de "palcio" do tio.
Era certamente um palcio, de um branco que brilhava ao sol. Assemelhava-se ao estilo georgiano, a no ser pelas janelas largas e pelos ornatos que lhe davam uma 
aparncia oriental.
Sobre o prtico tremulava uma bandeira que Kelda calculou ser o estandarte pessoal de lorde Orsett. Quando entraram no parque, viu hibiscos, que, com suas flores 
rubras, faziam a casa branca parecer em chamas.
-  uma beleza!
- Estou... com medo - murmurou Yvette.
- Garanto que no precisa ter medo - disse Kelda, embora estivesse longe de sentir tal confiana. - No h dvida de que seu tio aprecia a beleza, mesmo que no 
aprecie qualquer outra coisa.
Sabia que Yvette gostaria de dizer que isso no era consolo, mas nesse momento a carruagem parou diante dos degraus da frente, que estavam cobertos por um tapete 
vermelho.
Yvette desceu lentamente e Kelda a seguiu, dando graas a Deus por no estar usando as roupas feias que a sra. Gladwin exigia que usasse.
Em vez disso, tinha escolhido um vestido verde-claro, que a tornava muito jovem e primaveril. Seu chapu era enfeitado de rosas brancas, com folhas verdes da cor 
do vestido. Achou que fazia um contraste perfeito com Yvette, que estava de cor-de-rosa, a cor preferida de Rmy.
Em sua opinio, a roupa da amiga era enfeitada demais, mas sabia

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que Yvette queria fazer vista, da melhor maneira possvel. No apenas o chapu era enfeitado de rosas, como havia as mesmas flores na sombrinha de cabo de quartzo 
rosa.
- Voc est linda, querida - tinha dito Kelda, achando que lorde Orsett devia ser feito de pedra, se no percebesse como a pupila era bonita e atraente.
Um criado que parecia o chefe dos outros convidou-as a entrar, em francs, e as moas o seguiram atravs do vasto hall.
Assim como em todas as casas dos pases tropicais, havia portas em cada extremidade, abertas para que uma corrente de ar refrescasse o interior, mesmo nas horas 
mais quentes do dia.
Pela outra porta, Kelda podia ver o azul do mar. Calculou que a casa, situada no alto do rochedo, teria uma bela vista. Mas, no momento, estava por demais apreensiva, 
pensando como seria o lorde, para pensar em qualquer outra coisa.
Um criado abriu uma porta,  esquerda, que dava para uma sala enorme, com seis janelas largas e um terrao.
As persianas estavam descidas pela metade, por causa do sol, tornando o ambiente fresco. Devido  penumbra, a princpio foi difcil ver se havia ali algum, at 
um homem se levantar. Kelda soube que era lorde Orsett, apesar de ach-lo muito diferente do que imaginava.
Para comear, pelo modo como Yvette sempre falava dele, tinha pensado que fosse um homem de pelo menos cinquenta anos, ou talvez mais. Mas era muito mais moo e 
tinha um fsico que podia rivalizar com o de qualquer dos nativos que ela havia admirado.
De ombros largos, vestindo um terno branco, parecia bem alto e imponente. Depois, quando olhou para seu rosto, Kelda levou um susto. Suas feies eram bem definidas 
e tinha uma aparncia bela e aristocrtica. Ao mesmo tempo, parecia cnico e severo, quase sombrio.
Maximus Orsett olhava para Yvette, e Kelda teve um estremecimento: ele analisava a pupila quase friamente, sem sombra de afeio. Era um exame crtico, e havia no 
homem qualquer coisa de pouco natural e quase desagradvel.
- Bem-vinda a Dacar, Yvette - disse o lorde, com uma voz

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profunda que de certo modo pareceu fria e impessoal. - Espero que tenha feito uma boa viagem.
A moa fez uma reverncia.
Muito boa, obrigada, tio Maximus. Permita que apresente minha amiga, Kelda Lawrence, que me acompanhou.
Lorde Orsett deu sua ateno a Kelda, que tambm fez uma reverncia e teve dificuldade em olhar para ele, embora fizesse um esforo para consegui-lo.
- Amiga? Dei instrues  diretora do colgio para que mandasse uma das professoras.
- Todas se recusaram a vir a um lugar to longnquo... como a frica.
Fez uma pausa antes das ltimas palavras, e Kelda soube que ela ia dizer um lugar "no fim do mundo", mas se controlou a tempo.
- A srta. Lawrence foi muito prestimosa - observou o lorde, de um modo que no pareceu muito elogioso.
Kelda disse:
- Foi um privilgio, milorde.
- Kelda est habituada a viajar, tio Maximus - Yvette se apressou a explicar, como se percebesse a desaprovao dele. - Seu pai era o arquelogo Philip Lawrence, 
e ela viajou bastante com ele, antes de sua morte.
- No diga!
Lorde Orsett no parecia interessado. As duas moas sentiram sua irritao por Yvette no ter sido acompanhada por uma mulher mais velha.
- Preciso oferecer-lhe uns refrescos - disse ele. - Faz rnuito calor, a esta hora do dia, e muita gente se aproveita disso para fazer a sesta.
Falou como se tai costume fosse uma fraqueza  qual no sucumbiria. Antes que as moas pudessem dizer qualquer coisa, a porta se abriu e os criados entraram, trazendo 
bandejas com refrescos e doces. Kelda achou tudo delicioso.
Sentaram-se em sofs e poltronas to grandes e confortveis, que teve certeza de que tinham sido escolhidos pelo prprio lorde. Olhou rapidamente em volta e achou 
que, se ele gostava de beleza fora da casa, certamente apreciava tambm beleza e conforto no interior.

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A sala estava decorada com muito gosto, com bons quadros, belas peas de porcelana e objetos entalhados que Kelda sups tinham sido feitos por artesos nativos.
Mas era difcil, para ela, pensar em outra coisa, a no ser no anfitrio.
Estava reclinado na poltrona, muito  vontade, parecendo dele emanarem fora e poder... e mais alguma coisa que a amedrontava.
Tentou analisar o que seria e achou que era uma espcie de autoritarismo, como se estivesse to decidido a conseguir o que queria, que as pessoas se sentiam irresistivelmente 
atradas para ele, como por um im.
Mais tarde, j no quarto, Yvette perguntou a Kelda:
- O que achou dele?
- Assustador - respondeu, sem refletir.
- Ento, agora sabe como me sinto. Como posso dizer a meu tio que estou noiva de Rmy?
- Se eu fosse voc, no diria nada, at Rmy vir visit-lo amanh.
- Acho que seria mais sensato. Tenho a impresso de que, se discutssemos com meu tio, ele nos esmagaria com o sapato, como se fssemos insetos.
Kelda concordava, mas julgou mais prudente nada dizer. De repente, achou que tanto ela quanto Yvette eram muito pequenas e insignificantes.
Ali estavam elas, na frica; a no ser que lorde Orsett concordasse em fazer o que queriam, as duas seriam, para todos os efeitos, prisioneiras, naquela magnfica 
manso, no havendo ningum a quem pudessem recorrer ou pedir conselho.
Depois, achou que estava tendo medo sem necessidade e que, de jeito nenhum devia deixar que Yvette percebesse o que sentia.
Em vez disso, foi para a janela, para olhar a vista, que era magnfica.
O Atlntico, de um azul glorioso, estendia-se  sua frente, at o horizonte enevoado onde mar e cu se encontravam.
 esquerda podia-se ver a ilha de Gore;  direita estendia-se' a costa de areias douradas e coqueiros verdes.
Os pescadores estavam colocando no mar umas embarcaes pontudas que, segundo Kelda tinha lido, se chamavam "pirogas". Havia nelas qualquer coisa de delicado e de 
romntico. Ficou imaginando

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se iamais teria oportunidade de navegar numa daquelas embarcaes. Atrs dela, sentada numa cama larga e luxuosa como o resto do quarto, Yvette falava. Kelda virou-se 
para ela. Voc no me contou que seu tio era to moo. Pensei que ia encontrar um homem velho bastante para ser seu pai.
- A mim, ele parece velho.
- Que idade tem?
- Creio que trinta e seis ou trinta e sete. Isso  ter idade! Kelda sorriu.
- Ele no ficaria contente, se a ouvisse.
- No creio que se importe com o que eu diga ou pense sobre ele - observou Yvette, petulante. - Voc viu como : completamente absorto em si mesmo e em sua importncia. 
Rmy disse que os rapazes de Dacar no gostam de meu tio, porque os trata com superioridade. Mas  amigo do governador-geral.
- com certeza, tambm o trata com superioridade - disse Kelda.
- No sei por que mora aqui, sendo ingls. Afinal, trata-se de uma colnia francesa.
- Suponho que, como minha tia era francesa, ele preferia os franceses aos ingleses. Isso acontece com algumas pessoas, sabe?
Yvette estava troando com Kelda, porque esta muitas vezes tinha rido dela por ser muito patriota e sentir orgulho da Frana.
- O que os ingleses fizeram por voc, a no ser atir-la num orfanato?
- Faam eles o que fizerem, ainda sou inglesa - respondeu Kelda.
- E eu sou francesa, graas a Deus! - disse Yvette, orgulhosa.
- Deveramos andar por a com nossas respectivas bandeiras costuradas nos vestidos.
Ambas riram.
Agora, ao pensar em lorde Orsett, achou que, como ingls, ele devia viver em sua ptria. Se era to rico como diziam, certamente tinha casas e propriedades na Inglaterra. 
Por que desejava gastar seu dinheiro em Dacar?
Era um mistrio para o qual talvez nunca obtivesse resposta.
- Acha que devemos descer e ir conversar com o tio Maximus?
- Seria mais delicado. Gostaria de ver o resto da casa. Se estiver

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fresco, poderemos nos sentar no terrao e ficar olhando para o mar,
- Odeio o mar! Gostaria de ficar a uma janela, vendo os telhados de Paris. Quero que Rmy me leve a bailes. Quero ouvir a conversa e os mexericos das pessoas que 
gozam a vida, o que o tio Maximus no faz, como voc bem pode ver.
- Ento, por que mora aqui?
- S ele pode responder, mas duvido que voc consiga uma resposta sincera.
- Vamos descer e jantar - sugeriu Kelda.
Quando chegaram ao hall, o mordomo disse que lorde Orsett tinha dado ordem para ele mostrar qualquer parte da casa que elas desejassem ver. Depois, o ch seria servido 
no terrao.
Foi uni alvio poderem ver tudo sem a companhia do dono da casa. Enquanto iam de uma sala a outra, Kelda percebeu que lorde Orsett tinha mesmo muito bom gosto, conseguindo 
combinar as peas que tinha trazido da Europa com as que havia colecionado ou mandado fazer no Senegal.
Havia objetos entalhados sobre os quais Kelda gostaria de conversar com um conhecedor, pois sabia que eram muito antigos e, provavelmente, relacionados com as lendas 
da frica. Havia tambm metais que ela achou que eram preciosos, alm de tecidos feitos  mo que tinham um encanto especial.
Kelda queria parar para examinar muitas coisas, mas percebeu que Yvette estava aborrecida e achou que poderia fazer isso mais tarde.
Terminaram a visita  casa apressadamente e foram para o terrao, onde as esperava um ch quase ingls, servido por vrios criados.
- Acha que meu tio recebe muito, aqui? - perguntou Yvette.
- Espao  o que no falta!
- Foi voc que me disse que ele  um recluso.
- Ouvi isso em Paris. E Rmy me contou que, a no ser por ir jantar raramente com o governador-geral, ele no aparece em parte alguma.
- O que faz, o tempo todo? Yvette encolheu os ombros.
- Talvez fique sentado, odiando o mundo, ou praticando alguma magia negra especial.
Kelda nada disse. Dali a momentos, Yvette continuou:
Esqueceu que quero usar a magia negra contra ele? Mas tenho a impresso de que eu teria que ser muito forte e muito poderosa
Esperemos que consiga o que quer, sem recorrer a essas tticas - comentou Kelda, de brincadeira, mas, ao mesmo tempo, achando que lorde Orsett era um homem misterioso.
Como a casa era muito grande, tinha a impresso de que ela e Yvette estavam isoladas ali, embora dissesse a si mesma que era tolice pensar semelhante coisa.
Depois do ch, no viram mais nem sinal de lorde Orsett. O mordomo veio lhes dizer que a bagagem tinha chegado e que o jantar seria servido s oito horas.
Yvette apenas inclinou a cabea para indicar que tinha compreendido, mas Kelda perguntou:
- Onde vamos encontrar lorde Orsett, antes do jantar?
- Estarei esperando ao p da escada, m'moselle, para acompanh-las  sala onde o senhor lorde as estiver esperando.
Como estavam no comeo do ano, escurecia cedo. s cinco horas, estava muito mais fresco do que durante todo o dia.
Tinham celebrado o Natal a bordo. O pessoal do navio fez o possvel para tornar festiva a ocasio, havendo presentinhos dados por Papai Noel para todos os passageiros, 
mas estes em geral eram muito velhos, ou muito sem graa, para que a festa fosse divertida.
Kelda gostou, embora Yvette e Rmy estivessem por demais entretidos um com o outro para tomar parte nos festejos. No assistiram ao concerto que se realizou no saguo, 
mas danaram ao som da banda, mais tarde.
Agora, ao calor e o sol de Dacar, Kelda achou difcil pensar que na Inglaterra havia neve, gelo e tempestade de granizo, e que, se ainda estivesse na escola da sra. 
Gladwin, estaria tremendo de frio, no sto onde dormia, sem que a diretora lhe desse cobertores suficientes.
Ela e Yvette subiram. Duas criadas desfaziam as malas. Eram duas pretinhas bonitas, usando vestidos de algodo, como as criadas na Inglaterra, mas com turbantes 
vermelhos, provavelmente para cornbinarem com o emblema do dono da casa.
Depois que as criadas saram, Kelda disse a Yvette:
- Lorde Orsett obviamente gosta de colorido.
- Por que diz isso?

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- Os criados usam roupas coloridas. E h muita cor nos aposentos, embora dem a impresso de ser brancos.
- E o que voc sugere? Que pintemos o rosto com cores do arco-ris?
- No, isso no - respondeu Kelda, sorrindo. - Mas sugiro que hoje  noite use um de seus vestidos de cor viva. Sabe que precisamos causar boa impresso.
- vou usar o de tule cor de cereja, o preferido de Rmy.
- Nesse caso, vestirei o de gaze azul, que voc me deu.
- Acha que  suficientemente elegante para o senhor lorde?
- Voc  que deve estar muito elegante. Pessoalmente, admiro-me tanto, quando ponho os vestidos bonitos que me deu, que pouco me importo com que o senhor lorde pense 
ou no!
- Gostaria de poder dizer o mesmo. - Yvette gemeu e continuou: - Imagine, Kelda, se eu no tivesse conhecido Rmy, como estaria infeliz, agora! Suponhamos que precisasse 
ficar aqui fechada durante anos e anos, sem ter com quem conversar, a no ser o tio Maximus!
- Deve haver europeus morando em Dacar.
- Apenas homens. E, pelo que diz Rmy, o tio Maximus no convida nenhuma pessoa jovem para vir aqui. Rmy s veio duas vezes, quando teve que acompanhar o governador-geral, 
por um motivo qualquer.
Kelda no respondeu, mas podia compreender o que Yvette sentia. Uma pessoa to cheia de vida e de energia acharia o lugar muito montono, aps a vida alegre de Paris.
Depois de ter se vestido para o jantar, ficou por um momento  janela, olhando o luar, que dava s ondas um tom prateado, o cu cheio de estrelas que luziam como 
diamantes, e desejou ficar muito tempo em Dacar.
Para ela, a alternativa no era Paris, com seus festejos, eram o trabalho duro e a humilhao, na escola da sra. Gladwin.
Ao pensar nisso, fez uma orao de ao de graas, porque, acontecesse o que acontecesse no futuro, atualmente tudo era diferente dos oito longos anos de infelicidade.
Desceram a escada. O criado que as esperava levou-as, por um corredor largo e fresco, para um aposento que no tinham visto, quando visitaram a casa. Tinha janelas 
largas, que davam tanto para

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o mar quanto para terra, embora estivesse escuro demais para se ver qualquer coisa l fora.
Mas Kelda s tinha olhos para a sala. Ao contrrio do que acontecia nos outros aposentos, embora fosse grande, estava atravancada de livros, em todas as paredes, 
nas mesas, at mesmo no cho.
Achei que talvez vocs gostassem de ver meu santurio, onde passo a maior parte do tempo - disse Orsett. - Foi por isso que as convidei para virem aqui, hoje  noite, 
embora duvide de que lhes faa outros convites para me encontrarem aqui, no futuro.
- Qual a razo disso? - perguntou Yvette.
- Porque  aqui que trabalho.
- Que espcie de trabalho?
- Estou escrevendo a histria das tribos africanas ocidentais. Kelda soltou uma exclamao excitada e lorde Orsett virou-se para ela.
- Isso a surpreende srta. Lawrence?
- Estou profundamente interessada, milorde. Quando vi as peas entalhadas que h aqui, desejei saber tudo a respeito delas. Tenho certeza de que tm uma longa histria, 
assim como garanto que as lendas africanas so fascinantes.
Lorde Orsett pareceu surpreso. Depois perguntou a Yvette, quase bruscamente:
- E voc, est to interessada como sua amiga?
- Interesso-me mais pelo presente do que pelo passado. E, se tivesse que fazer alguma coisa, preferiria estudar a histria de Paris, mais do que a de qualquer outro 
lugar.
Falou em tom provocador, e lorde Orsett ficou de cara fechada. Disse, secamente:
- Achei que talvez quisessem um copo de vinho, antes do jantar. Como tem uma quedinha por Paris, Yvette, talvez seja apropriado lhes oferecer uma taa de champanhe.
- Obrigada. Quando esteve em Paris pela ltima vez, tio Maximus?
- H muito tempo.  uma cidade para onde no pretendo voltar. No havia dvida quanto  nota de desprezo da voz dele.
- Como pode dizer uma coisa dessas? Paris  a cidade mais maravilhosa, mais excitante do mundo!
- Suponho que tenha conhecido muitas, para compar-las com

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Paris - disse Orsett, em tom de zombaria.
- O suficiente para saber do que gosto e onde quero morar.
O tio no respondeu. Observando-o, Kelda achou que seus olhos tinham adquirido uma expresso glida e que os lbios se contraram numa linha dura.
"Yvette est fazendo com que fique contra ela", pensou.
Querendo conciliar as coisas, perguntou:
- Todos estes livros aqui so sobre a frica?
- A maioria - respondeu o lorde.
- Ento, espero que permita que eu leia alguns, para me elucidarem sobre coisas que desejo saber. Caso contrrio, talvez eu o aborrea fazendo perguntas.
- Muitos de meus livros so em francs.
- Leio francs perfeitamente.
Pela expresso de Orsett, viu que ele no acreditava. Mas foi em tom corts que ele disse:
- Nesse caso, certamente encontrarei alguns livros sobre os assuntos que despertam especialmente sua curiosidade.
Foi um alvio, quando anunciaram o jantar. Dirigiram-se para um salo onde cinquenta ou mesmo cem pessoas poderiam ser recebidas com conforto.
O jantar foi original e estava delicioso. Temendo que Yvette contrariasse de novo o tio, Kelda fez perguntas sobre a comida.
O lorde lhe disse os nomes dos peixes locais e ela ficou sabendo tambm alguma coisa sobre os principais produtos da regio.
Era um assunto que lhe interessava, mas percebeu que Yvette estava entediada, pois no tomava parte na conversa.
Depois do jantar, quando foram para uma saleta, a garota bocejou vrias vezes, e Kelda achou que talvez fosse melhor sugerir irem para a cama.
com um copo de conhaque na mo, Orsett sentou: se perto da pupila. Kelda soube, instintivamente, que ele ia dizer qualquer coisa importante.
- Voc deve ter ficado imaginando, Yvette, porque mandei que viesse para c, embora sabendo que esperava ir para Paris, para viver com seus parentes franceses.
- Achei muito estranho, tio Maximus. Para dizer a verdade, fiquei perturbada.

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poi o que calculei. Mas agora vou explicar por que desejei que viesse para Dacar.
Olhou para Yvette, ao dizer isso, e Kelda teve a impresso de que a avaliava, como um homem faria com um cavalo, notando as qualidades da sobrinha, sua aparncia, 
desde os cabelos negros e brilhantes at os ps pequenos e bem calados.
Dali a um momento, continuou:
A verdade, Yvette,  que mandei que viesse para c para casar.
- Casar?
A palavra foi dita em voz baixa, mas pareceu ecoar pela sala.
- Sim, casar. E deixe-me explicar por qu.
Reclinou-se mais confortavelmente na poltrona. Tanto Kelda como Yvette o fitaram, apavoradas.
- H alguns anos que vivo aqui e acabei ficando extremamente interessado pelo problema da colonizao francesa no Senegal, que  diferente de qualquer outra parte 
do imprio. - Fez uma pausa, como se esperasse que uma delas dissesse alguma coisa, e depois continuou: - O Senegal  agora a maior base da Frana na frica, e  
aqui que o imperialismo se tornar mais forte.
- Que tem isso a ver... comigo? - Yvette conseguiu perguntar.
-  o que lhe direi na ocasio oportuna. Discuti, com o atual governador-geral, as ambies francesas em relao ao Senegal. Ele  um homem muito inteligente. Conversei 
tambm com vrios oficiais que vieram para c, da Frana, nos ltimos dois anos. Acham que o mais necessrio, no momento,  uma sociedade branca estvel, tanto em 
Dacar quanto em St. Louis. - Olhou para Kelda e continuou: - Voc parece se interessar pela frica, de modo que presumo que tenha conhecimento de algumas das dificuldades 
que tm aqueles que administram o pas, devido  falta de mulheres europeias.
- Compreendo que  um... problema - respondeu Kelda. Por outro lado, no conheo os detalhes.
- Ento, deixe-me falar da posio atual. Inevitavelmente, os franceses que aqui se instalaram, por um prazo curto ou longo, arranjaram amantes e esposas.
Yvette deixou escapar uma exclamao, como se estivesse escandalizada, mas no fez nenhum comentrio. O tio prosseguiu:
- Numa sociedade comercial, as consortes de europeus, as signares, como so chamadas, tm certo status social.

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- Creio que li... alguma coisa a esse respeito - observou Kelda, achando que devia fazer algum comentrio.
- s vezes, um soldado ou o empregado de uma companhia estabelece sua signare num negcio, para aumentar sua renda. Quando deixa o posto para sempre, o negcio fica 
pertencendo  mulher e aos filhos.
- Parece justo - murmurou Kelda, mais para atrair a ateno de lorde Orsett e impedir que ele notasse como Yvette tinha ficado plida e apertava as mos, a ponto 
de as juntas ficarem lvidas.
- Os franceses decidiram que essa situao no  muito satisfatria - continuou Orsett. - Como querem transformar Dacar num porto importante,  bvio que ser necessrio 
convencer as mulheres europeias a virem morar aqui. E sua presena ter um efeito marcante na sociedade.
- Compreendo - disse Kelda, baixinho.
- Atualmente, existem menos de cem mulheres brancas em Dacar.  por isso que os franceses pretendem fazer todos os esforos para pressionar os comerciantes e os 
empregados do governo a trazerem as esposas para c, para que assim possam convencer outras mulheres a se unirem aos maridos. Haver muita coisa para elas fazerem. 
O prprio governador-geral est decidido a dar o exemplo, que certamente ser seguido por grande nmero de outros oficiais.
Houve silncio, at que, finalmente, Kelda disse, num murmrio:
- Como  que ele pretende... fazer isso?
- O governador-geral ficou vivo h alguns anos e pretende casar de novo. - Lorde Orsett virou-se para Yvette e acrescentou:
- Dei-lhe permisso para fazer a corte a voc, e ele vem visit-la amanh.
A moa parecia paralisada. Foi Kelda quem falou:
- O governador-geral? Mas deve ser... um velho...
- Certamente, est entre os cinquenta e os sessenta anos. Mas  moo de corao, sadio e atltico. Minha sobrinha no somente teria uma posio importante, como 
daria um exemplo que repercutiria em toda a Frana.
- Pretende realmente que eu case comum velho e fique morando neste pas horrvel, nada civilizado?
Yvette estava to chocada que nem sabia o que dizer.
- Voc ter uma opinio diferente sobre Dacar, depois que morar

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aqui durante algum tempo. E garanto-lhe que muitas mulheres aceitariam com prazer a oportunidade de casar com um homem to distinto.
- Ento, que fiquem com ele! - respondeu Yvette, quase histrica. - No tenho a mnima inteno de casar com o governadorgeral nem de morar em Dacar, e no pode 
me obrigar a fazer isso.
Levantou-se e encarou o tio com ar desafiador, tremendo devido  intensidade de suas emoes.
- Creio que se engana a esse respeito - declarou Orsett. - Posso, e a obrigarei a fazer o que quero. Enquanto for minha pupila, depende exclusivamente de mim, at 
completar vinte e um anos.
- Se pensa que me vai obrigar a casar com um homem que nunca vi, um homem velho bastante para ser meu pai, est muito enganado. Acontece que ia lhe contar... amanh... 
que estou noiva de tnonsieur Rmy Mendes e que no casarei com ningum, a no ser com ele!
A voz de Yvette soou mais alta, como se a simples meno do nome de Rmy lhe desse coragem. Encarou lorde Orsett, e a cor voltou a seu rosto.
- E quem  esse Rmy Mendes? - perguntou Orsett.
-  o ajudante-de-ordem de seu precioso governador-geral. Quando o conhecer, ver que  o marido adequado para mim, e no um homem que est com o p na cova.
- Eu  que devo decidir se  adequado ou no - respondeu o lorde, autoritrio. - Onde o conheceu?
- No navio, quando vnhamos para c.
- Um romance de bordo? Isso  logo esquecido.
- A  que se engana. Amo Rmy de todo o corao e ele tambm me ama.
- Tem certeza de que sua grande fortuna nada tem a ver com isso?
- Est a o tipo de coisa que o senhor pensaria! O pai de Rmy  muito rico.  tambm membro da Cmara dos Deputados. Rmy lhe mostrar suas credenciais, amanh. 
Poder, ento, julgar por si mesmo.
- Ele no precisa perder seu tempo - disse lorde Orsett.
- Que quer dizer com isso? - perguntou Yvette.
- Para falar claramente, no tenho inteno de ver meus planos

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fracassarem. Voc vai casar com o governador-geral. E no se fala mais em pretendentes pobres, que, se a srta. Lawrence tivesse desempenhado bem seu papel, no teriam 
tido, em primeiro lugar, opor tunidade de se aproximar de voc.
- Pensa realmente que tem o poder de me obrigar a obedecer a essa ideia ridcula?
- Tenho certeza de que sim. Fiz com que voc viesse para c para casar. E vai casar, dentro das prximas trs semanas. No se iluda: se esse francesinho sem importncia 
tentar se comunicar com voc amanh, ou em qualquer outro dia, saberei lidar com ele de um modo que far com que se arrependa para o resto da vida.
Yvette perdeu a calma.
- Como se atreve? Gomo ousa fazer ameaas, a mim, uma cidad francesa? Em primeiro lugar, o senhor no tem nenhum direito neste pas aqui, e  mau e louco, como 
todo mundo diz que ! Se pensa que pode me tratar como se eu fosse uma criada nativa, est muito enganado! - Bateu o p e continuou! - Eu o odeio, tio Maximus! Sempre 
o odiei! Prefiro me matar a deixar que faa comigo o que est pretendendo fazer!
Tendo dito isso, quase aos gritos, Yvette saiu correndo da sala.
Deixou a porta aberta. Kelda ouviu seus passos no corredor. Levantou-se e ia seguir a amiga, mas lorde Orsett, que ainda continuava reclinado confortavelmente na 
poltrona, perguntou:
- Tem alguma coisa a dizer, srta. Lawrence?
Kelda percebeu que havia nessas palavras uma provocao. Virou-se para ele, com olhos enormes no rosto delicado.
- Se quer saber a verdade, milorde, acho o que sugeriu diablico! Acho um desrespeito  natureza um homem, por mais importante que seja, querer bancar o deus!
Lorde Orsett no respondeu, apenas a encarou, e ela tambm o encarou.
Depois, sem nem mais uma palavra, a moa deu-lhe as costas e saiu, sem fechar a porta.

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CAPITULO IV
Subindo lentamente a escada, agarrada ao corrimo, Kelda percebeu que estava trmula e que seu corao batia acelerado. Tanto ela quanto Yvette tinham passado por 
uma experincia traumtica, que as deixara abaladas e chocadas.
Parecia inconcebvel que lorde Orsett tivesse pensando numa coisa to horrvel, na realidade, diablica, como Kelda havia dito, para uma criatura encantadora e boa 
como Yvette.
O fato de no ter considerado a sobrinha como ser humano, e sim, apenas como um boneco, ao realizar seus planos, tornava tudo pior.
O que Yvette havia dito dele parecia pouco, comparado com o que aquele homem realmente era.
Como esperava, a amiga estava jogada na cama, soluando.
Kelda sentou-se na beirada da cama. Yvette imediatamente abraou-a, dizendo:
- Salve-me, Kelda! Oh, salve-me! Sabe que tenho que casar com Rmy.
- Sim, sei. E  por isso que voc precisa parar de chorar. Temos que pensar no que fazer para lutar contra a maldade de seu tio.
Falou com tanta firmeza, que as lgrimas de Yvette cessaram e ela a olhou com ar indagador.

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- Quer dizer que... vai me ajudar?
- Claro que sim. Mas temos que ser espertas. Lembre-se de que seu tio  muito poderoso.
Yvette reclinou-se nos travesseiros.
- Nunca a vi assim, Kelda.
- Assim como? - perguntou Kelda com ar distrado.
- To forte e to corajosa. Sempre pensei que fosse fraca, porque se deixava dominar pela sra. Gladwin.
- Mas agora estou lutando, no por mim, mas por voc. E isso  diferente.
- E acha que poder ajudar?
Kelda percebeu que havia nessas palavras uma nota de desespero.
- No preciso dizer que vai ser difcil. Mas a primeira coisa a fazer  nos comunicarmos com Rmy.
- Mas como? Como? Sabe que o tio Maximus vai insult-lo e que no permitir que ele me escreva e, muito menos, que me visite.
- J pensei nisso, mas no posso acreditar que Rmy se conforme em perd-la. Voc no somente ter que ser corajosa, como tambm agir com inteligncia e sutileza.
- Mas como? Diga o que devo fazer.
Kelda ficou em silncio por um momento, olhando para a cabeceira da cama, mas nada parecendo ver.
S via a felicidade estampada no rosto de Rmy e no de Yvette, quando se olhavam, a bordo, e sabia que isso era amor, como sempre achara que devia ser, um amor no 
apenas do corao, como tambm da alma.
"Preciso salv-los", pensou.
Sentiu uma clera violenta, ao se lembrar do que lorde Orsett pretendia fazer.
- Diga o que est... pensando - pediu Yvette, em tom amedrontado.
- Estive pensando que, se voc vai mesmo casar com Rmy, ele ter que tir-la daqui o mais depressa possvel!
- Acha que ele pode fazer isso?
- Tem que fazer. Do contrrio, seu tio a obrigar a casar com o governador-geral.
Yvette deu um gritinho, horrorizada.
- Se no puder casar com Rmy, prefiro morrer. S de pensar

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eni casar com um velho, fico arrepiada de pavor e sinto como se fosse enjoar.
- Compreendo. Por outro lado, temos que compreender que voc est sob a jurisdio de seu tutor, e Rmy, sob a do governador-geral.
-  um cargo temporrio.
- Sei disso, mas estamos em Dacar e o governador-geral  todopoderoso. Poderia prend-lo e mand-lo de volta  Frana, e nada poderamos fazer.
Viu o olhar apavorado de Yvette e acrescentou, rapidamente:
- Por isso, acho que a primeira coisa a fazer, se quisermos enganar seu tio,  voc fingir que concorda com os planos dele.
- Concordar? - perguntou Yvette, quase gritando.
- Fingir que concorda. Se ele achar que voc est lhe fazendo oposio, vigiar todos os seus passos e no teremos chance de escapar  vigilncia dele.
Yvette achou que a amiga tinha razo. Disse, baixinho:
- Continue.
- Precisamos planejar, logo, alguma coisa. A primeira  voc pedir desculpas pela exploso de agora h pouco e dizer que foi apanhada de surpresa, mas que est disposta 
a considerar a sugesto. A segunda  receber o governador-geral, quando ele vier visit-la amanh.
- Acha que o tio Maximus vai ficar iludido, pensando que obedecerei?
- Depende de sua maneira de representar. O que no podemos fazer  permitir que o governador-geral fique contra Rmy.
- No, claro que no.
- Talvez me engane, mas creio que, quando Rmy chegar ao palcio, vai ficar sabendo, se no pelo prprio governador, ento pelos outros funcionrios, o que o governador 
e seu tio planejam fazer pela colnia.
- Que pensar, quando souber que pretendem fazer com que eu case com outro homem?
- Creio que ficar to chocado quanto voc, mas tambm toroar a resoluo de agir, de um jeito ou de outro.
- Ele me ama! Sei que me ama!
- Tambm tenho certeza disso. E, de um jeito ou de outro, vai se comunicar conosco, por mais difcil que seja.

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- Tio Maximus no vai deixar.
- Rmy saber que seu tutor tentar impedi-lo. Yvette enxugou as ltimas lgrimas.
- Diga o que devo fazer, Kelda. Diga exatamente o que devo fazer, para que no haja enganos.
Na manh seguinte, Yvette desceu, plida e submissa, seguida por Kelda.
Tinham sabido pelos criados que o desjejum seria servido no terrao. Quando se dirigiram para l, para uma mesa sob um toldo listrado de vermelho e branco, lorde 
Orsett se levantou.
Usava um traje de montaria, com uma gravata de n bem dado, mas o palet branco estava jogado numa cadeira. Tinha uma aparncia forte e muito dominadora.
Encarou Yvette e disse:
- bom dia. Espero que tenha dormido bem.
- Muito bem, obrigada, tio Maximus. E gostaria de pedir... desculpas, por ter sido rude, ontem  noite. O senhor me pegou de surpresa e fiquei... assustada. Espero 
que... me perdoe.
As palavras e o tom conciliador surpreenderam lorde Orsett, o que Kelda no deixou de perceber. Ele ergueu as sobrancelhas e disse:
- Talvez eu tenha sido precipitado, logo na primeira noite. Como voc pediu desculpas, espero que aceite as minhas.
- Naturalmente, tio Maximus. Est um dia muito bonito, para a gente discutir seja com quem for.
-  o que ambos devemos pensar. Espero que amanh voc e a srta. Lawrence me dem o prazer de sair a cavalo comigo.  sempre mais agradvel de manh, enquanto ainda 
est fresco.
- Seria timo! - disse Kelda. - Tenho muita vontade de conhecer os arredores da cidade, que dizem que vale a pena ver.
-  tudo muito bonito - concordou lorde Orsett.
Depois de sentados  mesa, ele de repente pareceu se lembrar de perguntar sobre o bem-estar de Kelda.
- Espero que tambm tenha tido uma boa noite, srta. Lawrence.
- Dormi bem, milorde, porque, assim como Yvette, estava cansada de ficar durante tanto tempo no mar. Confesso que acho as ondas mais atraentes quando esto murmurando 
ao longe.

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Lorde Orsett sorriu.
No me diga que enjoou.
Por incrvel que parea, nenhuma de ns sofreu esse mal desagradvel - respondeu Kelda. - Mas a travessia da baa de Biscaia no foi nada confortvel.
-  o que sempre acho tambm.
Os empregados trouxeram o desjejum e Yvette fez um esforo para comer alguma coisa. Depois que os criados se retiraram, lorde Orsett disse:
- Recebi um recado do palcio. O governador-geral vem aqui ao meio-dia. Espero que voc me ajude a receb-lo.
-  claro, tio Maximus. - Yvette falou com naturalidade e ainda acrescentou: - Tio, ficaria constrangida se, logo que formos apresentados, antes de nos conhecermos 
bem, o senhor falasse de assuntos... ntimos.
Como aliviado por v-la to cordata, lorde Orsett concordou imediatamente:
- Compreendo,  claro. Ser apenas uma visita de cortesia, para que voc e Sua Excelncia se conheam.  um homem interessante e extremamente inteligente. Tenho 
certeza de que tero muito em comum.
- Ele  de Paris? - perguntou Yvette.
- No nasceu l, mas creio que viveu na capital durante alguns anos. Teve tambm cargos" importantes em outras provncias francesas, alm do Senegal.
- Terei prazer em ouvir falar sobre isso.
A garota estava representando to bem, que Kelda teve que resistir ao impulso de bater palmas por uma atuao to convincente.
Ela e Yvette tinham levado muito tempo - na realidade, metade da noite - para elaborar um plano sobre como Yvette devia agir.
No apenas por ser inteligente, mas por estar apaixonada por Rmy, a moa fez todo o possvel para seguir a orientao da amiga.
Enquanto conversavam, agora, Kelda percebeu que lorde Orsett estava agradavelmente surpreso com o comportamento de Yvette e comeando a acreditar que a cena da noite 
anterior tinha sido o resultado de um choque, que ele devia ter evitado.
 noite, no quarto, Kelda disse  amiga:

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- Sabemos de uma coisa que vai ajudar, isto , que seu tio teve muito pouca convivncia com mulheres, desde que sua tia morreu.
- Que me diz daquela que meu primo viu, quando veio aqui?
- No creio que tenha sido importante.
- Acho que  uma daquelas mulheres sobre as quais ele falou ontem  noite?
- No tenho a mnima ideia. Em todo o caso, obviamente ela no est aqui, agora. E no posso acreditar que ele no fique completamente iludido, caso voc se mostre 
arrependida e disposta a fazer a vontade dele.
Kelda tinha certeza de que era isso o que estava acontecendo. Notava que havia algumas discrepncias no que Yvette dizia, que poderiam fazer com que um homem com 
maior conhecimento das mulheres desconfiasse, mas lorde Orsett parecia completamente iludido.
Depois do desjejum, ele perguntou:
- O que vocs gostariam de fazer, agora?
Yvette olhou para a amiga. Kelda j tinha uma outra ideia que considerava importante.
- Se no for incmodo, Yvette e eu gostaramos de dar umas voltas pela cidade. Para dizer a verdade, temos umas compras para fazer, embora no necessariamente hoje, 
e sim, quando no houver inconveniente.
- Talvez vocs queiram ir comigo em meu coche, que chegou h pouco tempo da Frana. Disseram que  do tipo que os rapazes franceses gostam de usar, quando passeiam 
pelo Bois de Boulogne.
Kelda notou que a amiga se contraiu, quando ele se referiu a Paris. Temendo que Yvette demonstrasse o quanto amava aquela cidade, disse, depressa:
- Seria timo! H tanta coisa que quero ver aqui, neste belo pas! Teve a impresso de que lorde Orsett a olhava com uma atitude de aprovao.
Achando que esperavam que ela desse uma opinio, Yvette disse:
- Tambm eu acharia agradvel, tio Maximus. Aposto que o senhor tem bons cavalos! Lembro que mame dizia que gostava muito de montar.
- Tem razo, Yvette, possuo timos animais, como vocs vo ver amanh. Trouxeram trajes de montaria, naturalmente. "m
- Claro - respondeu Kelda, com esperana- de que Yvette tivesse dois.
Quando subiam para se aprontar para o passeio, Kelda ps os braos em volta dos ombros da amiga.
- Voc esteve magnfica!
- Tive vontade de atirar um prato na cabea dele!
- Sim, compreendo. Eu tambm. Mas voc percebe que, pelo menos, estaremos fora de casa e talvez haja uma oportunidade de Rmy se comunicar cem voc?
Yvette suspirou.
- Digamos que ele ache que no h esperana e no procure se comunicar comigo.
- Ele tentar, se for possvel. Tenho mais medo de ele fazer alguma coisa estpida, como desafiar seu tio para um duelo!
Os olhos de Yvette brilharam por um momento. Depois, ela disse:
- Voc se esquece de que Rmy  um diplomata e sabe perfeitamente que no deve fazer nada que cause um incidente internacional.
Colocaram os chapus, que combinavam com os vestidos, e Yvette emprestou uma sombrinha a Kelda. Ento desceram, encontrando lorde Orsett no saguo,  espera.
O coche era puxado por dois cavalos e bastante grande para acomodar trs pessoas com conforto, com um cavalario sentado atrs.
Atravessaram os portes de ferro forjado, com o lorde dirigindo os cavalos com uma habilidade que Kelda achou excepcional.
Yvette olhava em volta com curiosidade, com esperana de, por milagre, ver Rmy.
Quando desceram e vislumbraram a areia branca da praia, com uma profuso de coqueiros e de moitas floridas que chegavam at o mar, Kelda soltou uma exclamao, encantada 
com a beleza do lugar.
Fez isso em parte para evitar que lorde Orsett notasse que a sobrinha no demonstrava nenhum entusiasmo e, tambm, porque estava realmente fascinada com a beleza 
de Dacar.
Havia poucos edifcios pblicos e vrios por terminar. Via-se claramente que as praas, assim como as ruas que levavam a elas, tinham sido bem planejadas e eram 
decorativas.

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As rvores floridas pareciam manchas alegres, contra os edifcios brancos.
Percebendo que Kelda estava interessada, lorde Orsett lhe mostrou o Falais de Justice e depois lhe explicou quais eram os planos para que a cidade se expandisse.
Viram as vendedoras de flores, que levantaram sua mercadoria quando a carruagem passou pelo mercado e que tinham um jeito original de equilibrar os buques nos turbantes.
- Que ideia encantadora! - comentou Kelda.
-  uma coisa que s se v em Dacar - explicou lorde Orsett.
- s vezes, fico imaginando quem teve essa ideia.
- Deviam fazer uma esttua imortalizando esse costume nativo
- disse Kelda.
- H muitos homens que acham que os nativos deviam passar  posteridade desse modo - comentou lorde Orsett.
- Mas, mesmo aqui na frica, os homens acham que as mulheres so importantes, no? - perguntou Kelda, em tom provocador.
Achou que, por um momento, um sorriso passou pelos lbios dele, como se Orsett compreendesse que ela o provocava de propsito.
- Tenho certeza de que as mulheres so importantes em todas as partes do mundo.
Foi uma resposta evasiva. Ao mesmo tempo, Kelda achou que o forou a pensar no que devia responder e sentiu que, at certo ponto, tinha lavrado um tento.
Quando voltou para casa, agradeceu-lhe muito pelo passeio. Yvette concordou:
- Foi muito interessante, tio Maximus, e espero podermos fazer outro passeio com voc, amanh.
- Espero que no fiquem muito cansadas, depois de sairmos a cavalo.
Subiram os degraus da frente at o saguo e Orsett tirou o relgio de ouro do bolso do colete.
- com certeza, vocs querem ir se arrumar um pouco, ou trocar de roupa, antes da chegada do governador-geral.
- Sim,  claro, tio Maximus. Onde devemos encontr-lo, quando descermos?
- Um criado lhes dir onde.

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Yvette e Kelda subiram em silncio. S depois de entrarem no quarto, Yvette disse, desesperada:
- Que vou fazer com o governador-geral? E se ele disser a Rmy que concordei em casar com ele?
No creio que a pea em casamento de supeto, na primeira vez que se encontrarem. Talvez me engane, e voc conhece os franceses melhor do que eu, mas parece-me que 
seria indelicado e uma gafe.
- Tem razo. Ele certamente me far elogios e vai insinuar muitas coisas que posso fingir que no entendo.
Kelda refletiu por um momento.
- Parea muito jovem e inocente, Yvette, e at mesmo estpida, se quiser. Provavelmente,  o que ele espera de uma moa da sua idade. E, mesmo que o governador sugira, 
no fique a ss com ele.
- No, claro que no! No me largue, Kelda! Prometa que no me deixar sozinha.
- Prometo. Mas tenho certeza de que Sua Excelncia se comportar de maneira muito civilizada, de modo que voc no precisa ter medo.
- Se ao menos eu pudesse falar com Rmy!... Como  que posso saber o que ele est pensando ou sentindo, nesse momento? Suponhamos que acredite que vou obedecer a 
meu tio.
- Sabe que ele no acreditaria nisso, acontecesse o que acontecesse. Deixe de ser medrosa, Yvette. Se quiser escapar dessa situao horrvel, precisamos ter a cabea 
fresca, o tempo todo.
- Oh, Kelda, o que eu faria sem voc? Graas a Deus, voc est comigo!
Kelda abraou a amiga e tambm achou que era boa coisa estarem juntas.
No subestimava a tarefa  qual se dedicara: a de salvar Yvette. E de manh, quando saram a passeio com lorde Orsett, achou-o ainda mais assustador. Havia nele 
qualquer coisa que fazia com que Parecesse um conquistador, um homem que sempre conseguiria o que quisesse, um homem que lutaria at a morte, s para no se entregar!
Mas era uma coisa que no pretendia dizer a Yvette.
Antes de descer, trocaram de roupa, usando vestidos elegantes "}ue s podiam ter vindo de Paris.

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O de Yvette era de renda creme sobre gaze, com uma faixa cor de coral na cinturinha fina e uma fita coral no pescoo. Estava muito bonita.
Tinha insistido para que Kelda se vestisse com igual esmero. O vestido dela era de seda, enfeitado de renda. Seus olhos pareciam mais azuis, e sua pele, ainda mais 
clara.
- Preferiria no chamar a ateno - protestou Kelda, quando a amiga tirou esse vestido do armrio.
- Sabe que no pode fazer isso e deixar que o tio Maximus se concentre em mim, com olhos de falco! Voc precisa distra-lo e mante-lo interessado, para que eu possa 
pensar em Rmy e procurar um jeito de v-lo. Tenho a impresso de que se passaram cinco anos, desde que o vi pela ltima vez.
Um criado levou-as para um salo ainda mais suntuoso do que o que havia sido usado antes. Kelda calculou que fosse usado para ocasies especiais. Admirou no apenas 
a decorao, como tambm os vrios arranjos de flores que perfumavam o ambiente.
Assim que se reuniram a lorde Orsett, um criado apareceu e o dono da casa saiu apressadamente.
- Para onde foi? - perguntou Yvette, surpresa.
- Creio que  de praxe receber o governador-geral  porta. Yvette aproximou-se da amiga.
- Estou tremendo, Kelda. Sei que  estupidez minha, mas estou com medo. Medo de que voc no consiga me salvar. Medo de que, no fim, eu tenha que casar com aquele... 
velho horrvel.
- No deve pensar assim. Tem que pensar que vai vencer. Confie em seu amor. Faa uma prece com todo o corao e logo se sentir melhor e mais confiante.
- Estou rezando. Rezo o tempo todo para So Judas, que  o protetor das causas perdidas.
- Esta no est perdida - corrigiu Kelda, zangada. - Mas continue rezando, Yvette. Precisamos ter todos os santos do nosso lado.
Ouviu-se o som de vozes do lado de fora. Logo depois, lorde Orsett entrou, acompanhado pelo governador-geral.
Kelda achou que ele era exatamente como o tinha imaginado: baixo, magro, rijo. com um rosto inteligente, cheio de rugas, devido
- idade e aos anos passados nos trpicos. Seus cabelos ralos j estavam ficando brancos.
Depois das apresentaes, enquanto conversavam, Kelda pensou aue ele tinha certo encanto, assim como muito boas maneiras.
Mas era velho; disso, no havia dvida. Velho e, para Yvette, aterrador.
Mas a francesinha estava se comportando muito bem, de modo que nem mesmo lorde Orsett tinha o que criticar. Embora no dissesse muita coisa, Yvette ouvia tudo com 
ateno. Aceitou os elogios do governador-geral com uma modstia que fez com que ele pensasse que nunca tinha recebido elogios. E a garota disse coisas encantadoras 
sobre Dacar, que agradaram tanto ao governador quanto a lorde Orsett.
De novo, representou com uma habilidade que fez com que Kelda achasse que a amiga podia fazer parte da Comdie Franaise. S ela percebia que Yvette estava trmula 
e com as mos apertadas no colo. com tanta fora, que as juntas estavam lvidas.
O governador-geral no ficou muito tempo. Mas, quando se despediu, segurou a mo de Yvette por mais tempo do que o necessrio, dizendo:
- Foi um grande prazer conhec-la, mademoiselle de Villon. Como desejo receb-la no palcio, seu tio prometeu que a levar, assim como a sua amiga, para jantarem 
l hoje.  uma ocasio que ficarei aguardando com ansiedade, mais do que posso expressar por palavras.
- Tambm eu aguardarei esse momento - respondeu Yvette. Houve em seu olhar um sbito brilho, que o governador certamente atribuiu ao que ele disse, mas Kelda sabia 
que era devido  esperana de encontrar Rmy.
Lorde Orsett acompanhou Sua Excelncia at a carruagem. Quando voltou, ficou por um momento olhando para as duas moas. Havia em seu rosto uma expresso indagadora. 
Kelda notou em seus olhos um ar cnico, como se ele no acreditasse que as coisas estivessem correndo to tranquilamente como parecia.
- Posso acreditar que voc realmente aguarda com prazer a oportunidade de jantar no palcio, esta noite? - perguntou ele.
- Claro. Ouvi dizer que  um prdio imponente.
- Quem lhe disse isso?

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A pergunta foi feita com brusquido, e Yvette foi bastante pers. picaz para perceber qual a resposta que o tio esperava. Olhou para Kelda, com ar perplexo.
- Quem foi mesmo que nos falou do palcio, Kelda? Foi o capito ou aquele casal simptico que tomou conta de ns?
Kelda foi igualmente esperta.
- Foi o capito - respondeu, depressa. - Sua Excelncia o governador o recebeu, depois de uma de suas viagens, e foi um gesto que o capito apreciou muito.
A suspeita desapareceu do olhar de lorde Orsett.
- com certeza, vocs vo querer descansar, depois do almoo, para ficarem belas hoje  noite. Mas quero preveni-la, Yvette, de que, se est pensando em encontrar 
o cavalheiro que ficou conhecendo a bordo, risquei seu nome da lista das pessoas que vo ser convidadas para o jantar.
Po um momento, houve um silncio ameaador. Temendo que Yvette dissesse alguma coisa, Kelda se afastou para um lado e, ao faz-lo derrubou uma mesinha ao lado de 
uma das cadeiras.
Um cinzeiro e alguns objetos de adorno caram no cho, com rudo.
- Oh, meu Deus, como sou desastrada! No percebi que a mesinha estava a. Espero que nada se tenha quebrado.
- No, est tudo intacto - observou Yvette, erguendo a mesinha e recolocando os objetos.
O momento de perigo passou, e Kelda suspirou de alvio. S depois do almoo, quando foram para seus quartos, Yvette explodiu, furiosa:
- Como  que meu tio se atreve a impedir que Rmy v ao jantar? O que voc pensa que ele disse ao governador-geral? Que explicao deu? Talvez tenha arruinado a 
carreira de Rmy!
-  muito melhor que Rmy no esteja presente - observou Kelda, serenamente.
- O que quer dizer com isso? - perguntou Yvette, furiosa.
- Se Rmy estivesse l, voc no olharia para outra pessoa. Toda a sua representao seria perdida, no momento em que seu tio visse vocs dois juntos. A, no acreditaria, 
nem por um segundo, que voc concorda em casar com o governador.
Yvette ficou em silncio por algum tempo.

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- Compreendo...
jVlas estar sob o mesmo teto que Rmy, e duvido que ele no encontre um meio de se comunicar com voc. Fique preparada para qualquer coisa: um murmrio, um bilhete 
enfiado em sua tno. No sei o que vai ser, mas garanto que Rmy se aproveitar da oportunidade de voc estar no palcio.
- Espero que sim...
A dor no olhar da amiga fez com que Kelda desejasse ferir lorde Orsett da mesma maneira, e que ele sofresse como fazia a sobrinha sofrer.
Os vestidos que elas usaram  noite eram, na opinio de Kelda, muito mais apropriados para um baile em Londres do que para um lugar que Yvette chamava de "fim do 
mundo".
Lorde Orsett tambm estava muito elegante, em traje a rigor. Levou as duas moas para o palcio numa carruagem fechada, to imponente como Rmy lhes havia dito que 
era.
O edifcio enorme, de estilo muito mais africano do que a manso de Orsett, tinha uma dignidade realada pelos soldados com tnicas vermelhas de mangas curtas e 
com chapus pontudos, tambm vermelhos.
Havia apenas mais seis convidados, alm deles, todos homens e todos chefes de departamentos importantes.
Foi, portanto, um grupo de dez que se sentou  mesa da imponente sala de jantar. O jantar foi excelente; cozinha francesa, feita sob a direo de um chef que viera 
da Frana e agora estava treinando chefs nativos, para que continuassem seu trabalho, depois que ele voltasse para Paris.
Como as moas eram as convidadas de honra, Yvette sentou-se  direita do governador-geral, e Kelda,  esquerda, ao passo que o lorde ficou na outra ponta da mesa, 
ao lado do ministro da Justia.
Kelda percebeu que nada do que Yvette dizia escapava  ateno do tio. Durante o jantar, dirigiu vrios olhares de aviso para a amiga, quando esta parecia estar 
olhando em volta,  procura de Rmy, como se ele estivesse escondido em algum canto da sala ou pudesse v-lo atravs de uma vidraa.
Kelda achou importante manter o interesse do governador-geral. Para que ele no percebesse como a futura noiva estava tensa. Assim

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sendo, fez todos os esforos para que ele lhe contasse coisas sob o Senegal, o que no foi difcil.
Evidentemente, o governador desejava o melhor para o pas e para a administrao francesa. Contou a Kelda muitas coisas do que ela desejava saber, no percebendo 
que, quando se dirigia a Yvette a moa respondia por monosslabos.
De acordo com os costumes franceses, as senhoras no se levanta vam da mesa antes dos homens, de modo que todos voltaram juntos para o salo onde tinham sido recebidos.
Foi uma decepo, porque Kelda tinha esperana de que, quando Rmy aparecesse, ficasse a ss com Yvette. Mas agora no havia a mnima chance disso. Foi um alvio, 
quando, depois de conversarem um pouco no salo, lorde Orsett sugeriu que voltassem para casa,
- Foi uma noite encantadora - disse ele ao governador. - E no se esquea de que prometeu jantar conosco amanh. Teremos muito prazer nisso.
- No tanto quanto eu, milorde.
Ao dizer isso, o velho olhou para Yvette, e Kelda sentiu uma dor no corao. Sabia, sem que lhe dissessem, que na noite seguinte o governador ia ter oportunidade 
de conversar a ss com Yvette.
Entraram no hall, onde os criados esperavam com as echarpes de gaze que as moas tinham trazido sobre os ombros e a cabea, quando vieram de casa.
Kelda esperou que um dos criados a ajudasse a colocar a sua, virando-lhe as costas para que ele fizesse isso. E ento, quando sentiu a echarpe sobre os ombros, sentiu 
tambm um papel dobrado sendo colocado em sua mo.
Disfarou e, um minuto depois, guardou o bilhete na bolsinha de cetim que Yvette lhe havia emprestado.
Quando chegaram em casa. ficou aflita para que lorde Orsett se despedisse.
- Os cavalos estaro  porta amanh, s sete horas - disse ele. - Eu costumo sair um pouco mais cedo, mas no quero que vocs andem muito e fiquem doloridas, pois 
no devem ter feito muito exerccio a bordo.
Disse isso de um jeito que fez com que Kelda pensasse que no

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queria que a sobrinha ficasse muito cansada, quando teria que receber o futuro noivo,  noite, para jantar.
Yvette respondeu, maquinalmente:
Ser agradvel montar a cavalo novamente, e o senhor poder nos mostrar os arredores da cidade, que  muito mais sofisticada do que eu esperava.
- Estou encantado por ver que lhe agrada.
As duas deram boa-noite. Enquanto subiam a escada, Kelda calculou como a amiga devia estar deprimida e decepcionada. Yvette tinha esperado, contra todas as probabilidades, 
encontrar Rmy ou ter alguma notcia dele.
S depois que as criadas saram, Kelda foi para o quarto da amiga, levando a bolsinha de cetim.
A francesinha estava reclinada sobre os travesseiros, com expresso desesperada. Kelda disse:
- Veja s o que lhe trouxe!
Estendeu a bolsa, e, por um momento, Yvette no entendeu nada. Depois, soltou uma exclamao:
- Quer dizer que...
- Abra a bolsa e veja.
- Oh, Kelda, pensei que ele tivesse se esquecido de mim!
- Veja o que ele tem a dizer. Ou prefere ler sozinha?
- No, claro que no! No tenho segredos para voc.
Yvette -abriu a bolsa com dedos desajeitados, como se eles no lhe obedecessem. Tirou de dentro um pedao de papel dobrado, onde Rmy tinha escrito algumas palavras 
numa letrinha mida. Leu, e Kelda ficou  espera. Depois lhe disse emocionada:
- Ele me ama! Ele me ama, e nada mais tem importncia!
- Que mais diz ele?
- Que temos que fugir juntos. Ouviu falar dos planos do governador e de meu tio. No dos lbios do governador, mas por intermdio dos ajudantes-de-ordens de Sua 
Excelncia. Est horrorizado e diz que me salvar, ou morrer tentando fazer isso! - Yvette suspirou e perguntou: - Haver homem mais maravilhoso?
- O que ele sugere?
Conta que est fazendo seus planos e que dar um jeito de

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se comunicar comigo amanh, ou depois. Diz que algum me dar umas flores e que preciso ter cuidado, porque dentro haver um bilhete escondido.
- Diz como  que voc pode fugir e para onde deve ir? Yvette continuou lendo a carta, com expresso extasiada. Dali h momentos, falou: "
- Diz que me ama! Que lhe perteno! Que matar qualquer homem que tentar me roubar dele. Oh, Kelda, ele me ama como eu o amo! De um jeito ou de outro, minhas preces 
sero atendidas e me tornarei esposa de Rmy.
As duas moas conversaram at tarde. Depois de ler a carta uma dzia de vezes, Yvette deu-a a Kelda. Esta percebeu o quanto o rapaz estava preocupado com o que ouvira 
ao chegar ao palcio, Por outro lado, era bastante homem para no demonstrar  amada seu medo e sua apreenso.
Na realidade, tentava tranquiliz-la, fazer com que confiasse nele e acreditasse que tudo daria certo no fim, embora fossem encontrar muitas dificuldades no caminho.
- Como  que no pensei em levar uma carta para ele? disse Yvette, zangada.
- Porque teria sido uma coisa perigosa e muito tola - falou Kelda. - No sabemos quais os criados do palcio que merecem confiana. Se tivesse escrito uma carta 
indiscreta, poderia ir parar nas mos do governador, depois nas de seu tio, e certamente seramos muito mais vigiadas, no futuro, do que agora.
- Creio que tem razo. Mas suponhamos que Rmy pense que no gosto mais dele.
- Creio que confia em voc, Yvette, como voc confiou nele. E tenho a sensao muito reconfortante de que podemos deixar todo o planejamento por conta de Rmy. S 
o que teremos a fazer ser seguir suas instrues, quando as recebermos.
- Ele  maravilhoso - disse Yvette, pela centsima vez. Kelda estava mais aliviada do que a amiga. Tinha sido uma enorme responsabilidade planejar o que Yvette devia 
fazer e como se comportar, sabendo que, como tomara a iniciativa, ela, Kelda, seria a culpada, caso fracassassem.

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Agora estava satisfeita por poder confiar num homem. Gostavade  Rmy e o admirava. Sendo muito mais velho do que elas, Kelda tinha certeza de que conseguiria salvar 
Yvette, embora as chances fossem poucas.
Alisfoi difcil conciliar o sono. Ficou imaginando como Rmy poderia tirar Yvette da casa do tio, como poderiam escapar de Dacar e depois do Senegal, sem que fossem 
obrigados a voltar, trazidos pelos soldados do governador-geral.
Era um problema terrvel, para o qual no parecia haver soluo.
Mesmo depois de pegar no sono, Kelda continuou inquieta. Sonhou que ela e Yvette eram perseguidas por figuras mascaradas e misteriosas, como as que estavam penduradas 
nas paredes da casa de lorde Orsett.
De manh, saram a cavalo exatamente na hora marcada por lorde Orsett, dirigindo-se para um lugar onde no havia estradas, e sim, areia macia.
Pela primeira vez, Kelda viu casas estranhas, cobertas de sap, onde moravam os nativos. Viu tambm os baobs, rvores que ficavam sem folhas o ano todo e tinham 
troncos enormes, com galhos tortuosos. Davam a impresso de terem sido vtimas de uma terrvel maldio, ficando imobilizados desde o instante do castigo. Tinham 
uma aparncia ameaadora.
Mas havia outras rvores cheias de vida e muito bonitas: algodoeiros sedosos, palmeiras, coqueiros, bambus. E tambm as rvores frutferas que ela esperava encontrar 
no Senegal: laranjeiras, limoeiros, abacateiros e goiabeiras.
No meio delas, gazelas, antlopes e macacos que fugiram  aproximao dos cavalos. De vez em quando, ao passar perto de um ugar onde havia gua, viam alguns hipoptamos.
Kelda estava fascinada. Quando voltavam para casa, percebeu que lorde Orsett parecia contente com seu entusiasmo.
que acha de meu pas? - perguntou ele a Yvette, que nada dizia.
Seu pas? O senhor  ingls, tio Maximus.  meu pas adotivo. E, quanto mais aprendo sobre a frica,

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mais percebo o quanto h para se aprender e quo fascinante
- Pretende ficar aqui o resto da vida?
- Creio que sim. Em todo caso, vou levar ainda muito tempo para terminar meu livro.
- Naturalmente... - comeou Yvette, com um olhar de esguelha.
Pelo tom da amiga, Kelda percebeu que ela pretendia provocar o tio. A francesinha terminou a frase:
- como o senhor tem tanto interesse em aumentar a popu lao branca daqui, com certeza pretende casar logo.
Kelda ficou de respirao suspensa, ante a ousadia da moa, ma soube que ela fazia isso porque se sentia feliz e segura, aps a carta de Rmy. No tinha mais tanto 
medo do tio como quando chegaram.
- Essa ideia certamente me ocorreu, mas, como h muito tempo no vou  Inglaterra,  um tanto impraticvel. Enquanto falava, trotando no meio das duas moas, o lorde 
virou  a cabea para Kelda e os olhares de ambos se encontraram. 


Por um momento, ela ficou sem ar.
Ento, como se soubesse em que estava ele pensando, deixou escapar um gemido abafado.
No podia ser verdade! No era possvel que estivesse pensando naquilo que ela imaginava!
Apesar de tudo, sabia que era verdade.
CAPITULO V
Vendo o governador-geral levar Yvette para o outro lado do salo grande, de um modo um tanto bvio, Kelda soube que o momento que temiam tinha chegado.
Lorde Orsett continuou conversando com ela, como se nada de estranho estivesse acontecendo, e Kelda se esforou para dar-lhe toda a ateno e responder s perguntas 
com inteligncia.
Teria ficado mais apreensiva, se no soubesse que Rmy tinha mandado outra carta para Yvette, de um modo ardiloso, mas um tanto arriscado.
Quando o governador-geral chegou, Lorde Orsett o recebera  Porta e o levara para o salo.
O velho trazia um magnfico buqu de orqudeas que, em qualquer outra ocasio, teria encantado a pessoa a quem fosse destinado.
Kelda percebia que a amiga estava nervosa e apreensiva, desejando ardentemente receber outra comunicao de Rmy.
Quando o governador se adiantou, ao lado de Orsett, Kelda lembrou-se de que o rapaz havia escrito que algum daria umas flores a Yvette e que ela precisava ter cuidado!
No achou possvel que Rmy fosse ousado a ponto de esconder Uma carta no buqu trazido pelo prprio governador, que ia d-lo  moa que pretendia por esposa.
Depois pensou que talvez no houvesse outro meio de fazer com qUe um bilhete entrasse secretamente na casa de lorde Orsett.
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Desejou poder dizer alguma coisa  amiga, para preveni-la do perigo. Quando o governador entregou as flores  Yvette, Kelda ficou alerta.
- E este presente  seu, srta. Lawrence, - disse o velho, entregando-lhe uma caixinha amarrada com uma fita que, com certeza continha bombons.
-  muita gentileza sua, Excelncia.
Houve uma pausa, quando o governador olhou para Yvette, e a francesinha disse, maquinalmente:
- So lindas! Muito. . . agradecida.
- Vou coloc-las num vaso com gua. So to bonitas, que precisamos fazer com que durem o mximo possvel. - Ao dizer isso, Kelda pegou o buqu das mos da amiga.
- Uma das criadas pode cuidar das flores - disse lorde Orsett. Kelda sorriu.
- Confesso que me esqueci de meu leno, de modo que vou dar instrues a uma das criadas, quando subir. Sei que Yvette vai querer essas flores em seu quarto.
Antes que o lorde pudesse dizer mais alguma coisa, ela saiu apressadamente da sala, atravessou o saguo e subiu a escada.
Assim que fechou a porta do quarto, procurou, pela carta. Viu que havia uma fita larga, prendendo as orqudeas umas s outras.
Em apenas alguns segundos, desmanchou o buqu e encontrou como esperava, um papel embaixo da fita, enrolado em volta dos cabos das flores.
Escondeu-o numa gaveta, pegou um leno, chamou uma criada que estava no corredor e mandou que colocasse as orqudeas num vaso. Depois desceu, sabendo que o que acontecesse 
naquela noite teria pouca importncia. S o que importava eram as instrues que deviam estar no bilhete que o governador tinha trazido, em total ignorncia.
Era at divertido que ele fosse, inconscientemente, o mensageiro do amor. Kelda estava ansiosa para contar a Yvette sobre o bilhete, mas sabia que seria perigoso.
S quando saram da sala de jantar, os homens caminhando atrs delas, foi que disse baixinho:
- As flores que Sua Excelncia trouxe so exatamente as de que voc precisava! 
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percebeu que o olhar da amiga se iluminava. Yvette fitou-a com ar indagador. Kelda sorriu, sem nada mais dizer.
Compreendia que o fato de Yvette saber que a carta de Rmy a esperava faria com que se tornasse fcil representar seu papel, quando
o governador-geral se declarasse e ela tivesse que lhe dar uma resposta.
- Voc perguntou sobre minhas peas entalhadas - dizia lorde Orsett. - H, nesta sala, duas que considero das melhores que jamais vi. - Aproximou-se de uma cristaleira 
e mostrou a cabea de um homem, em terracota. -  do sculo XIII e veio da Nigria -? explicou.
-  linda! - exclamou Kelda.
- Acha, mesmo? Ou est dizendo isso s para ser amvel?
- Estou dizendo a verdade. E acho essa outra pea de marfim tambm muito bonita.
- A mscara?

Kelda fez que sim, examinou os dois objetos e disse:
- Gostaria de saber a quem representam, mas creio que, como so muito antigas,  impossvel saber.
- Creio que se trata de um dos chefes, ou de um guerreiro-lder
- respondeu lorde Orsett. - Assim como na poesia, os entalhes so elogios quele que est assim representado.
Kelda olhou-o, esperando uma explicao.
O elogio  a forma potica mais usada na frica. Aplica-se no apenas aos deuses, como aos homens, aos animais e s plantas.
-  muito interessante! - disse Kelda, com sinceridade.
- Creio que sabe que a poesia, na frica, existe quase exclusivamente em forma de cano.
?- No sabia, mas compreendo que os africanos achem mais fcil se expressar pela msica do que de qualquer outra forma.
Olhou de novo para o objeto de terracota, com suas feies bemfeitas, lbios grossos e olhos que ela achou que deviam ter tido uma expresso inteligente, quando 
o modelo posara.
Estava to encantada, que falou quase como antigamente se dirigia ao pai:
- Recite um poema, diga o que foi escrito sobre um homem como este aqui.
Teve a impresso de que o lorde ficou surpreso, mas ele respondeu: Recentemente traduzi um, sobre o grande chefe zulu Shaka,
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mas no vou aborrec-la com mais do que alguns versos. - Fez uma pausa e recitou, com sua voz grave:
- "Ele  Shaka, o inabalvel, Trovejante; quando sentado, Filho de Menzi,  a ave de rapina que ataca outras aves,
A alabarda superior a todas as outras alabardas."
-  fascinante! Mas disse que  um poema longo?
- Ocupa vrias pginas de meu livro - respondeu Orsett, sorrindo. - O i jab, o canto dos caadores, geralmente dura tanto quanto a caada.
Kelda riu tambm. Depois olhou ao redor e viu que Yvette se dirigia para eles, vindo do outro lado da sala. No parecia especialmente agitada, mas Kelda notou que 
o governador-geral estava com um sorriso satisfeito.
- Creio que j vou, mas tenho planos para um jantar grande no palcio, depois de amanh - disse o velho a lorde Orsett.
- Tenho certeza de que ser timo - respondeu o dono da casa. Kelda notou o olhar agudo que ele lanou a Yvette. Achou que
Orsett estava imaginando se o jantar seria dado para anunciar o noivado de sua pupila com o governador. Sua Excelncia estendeu a mo  moa.
- Au revoir, Yvette. Vou contar as horas, at nos encontrarmos novamente.
Kelda notou a voz emocionada e tambm que, pela primeira vez, ele a chamava pelo primeiro nome.
Mais ainda: depois de fit-la longamente, tomou-lhe a mo e beijou-a.
Teve a impresso de que a amiga estremeceu quele contato e esperou que Orsett nada tivesse notado.
O governador-geral virou-se ento para Kelda.
- Au revoir, srta. Lawrence.
- Au revoir, Excelncia, e obrigada pelo presente. Foi muita gentileza sua.
- Foi um prazer - respondeu o governador, maquinalmente. Saiu da sala com lorde Orsett. Quando j no podiam ouvi-las,
Yvette perguntou:
- Veio carta de Rmy?
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- Sim, veio. Est l em cima, em meu quarto. O que foi que
SUa Excelncia lhe disse?
O que voc esperava? Ele me prestou suas homenagens e disse
que espera que sejamos muito felizes juntos, depois que casarmos, no fim do ms!
- E o que respondeu?
Respondi que era uma grande surpresa para mim, que me sentia
profundamente honrada e esperava que ele me desse tempo para me acostumar  ideia de casar, principalmente com uma pessoa to distinta.
Kelda deu uma risadinha.
- Foi muita esperteza de sua parte.
- Procurei imaginar que no era eu que estava falando, e sim, alguma artista, numa pea de teatro. Uma pea que ia acabar bem.
- E vai - declarou Kelda, confiante.
Pareceu-lhe que lorde Orsett levou muito tempo para se decidir a dar-lhes boa-noite. Finalmente, as duas moas subiram, mas antes ele disse, a Yvette, com muito 
pouco tato, na opinio de Kelda:

- Parece que voc fez com que Sua Excelncia se sentisse muito feliz. Estou encantado por ver que demonstrou bom senso e quero cumpriment-la por seu bom comportamento, 
tanto hoje quanto ontem  noite, no palcio.
- Sinto-me aliviada por estar satisfeito comigo, tio Maximus respondeu Yvette, recatada.
Kelda de repente imaginou que o lorde fosse falar em Rmy e declarar que tambm estava satisfeito por ver terminado aquilo que chamara de "romance de bordo".
No confiando na reao de Yvette, caso isso acontecesse, disse, rapidamente:
- Creio que, como estamos cansadas e um pouco doloridas devido ao passeio a cavalo de hoje de manh, seria melhor irmos para a cama.
?- Tem razo, srta. Lawrence. Boa noite.
- Boa noite, milorde.
- Boa noite, Yvette - disse o lorde. - Creio que vai aprender a apreciar a natureza atraente do Senegal. Como ser seu lar, tenho muita coisa ainda para lhe mostrar. 
Talvez, amanh, esteja disposta a ir um pouco mais longe do que fomos hoje.
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 Seria timo. Boa noite, tio Maximus.
Virou-se, ansiosa para ir para o quarto, mas Kelda passou o brao pelo dela, para caminharem mais devagar.
Sabia que lorde Orsett era perspicaz e poderia estranhar que el; tivesse levado o buque de Yvette para cima, em vez de mandar uma das criadas que fizesse isso.
- Cuidado! - murmurou para a amiga. Em voz alta, disse
- Tambm me sinto um tanto dolorida. Voc tem que me ajudar; subir a escada, como se eu fosse uma velha.
- Amanh estar boa, querida.
- Espero que sim.
Sabiam que Orsett podia ouvir o que diziam, mas no olharam pa trs. Chegando em cima, seguiram pelo corredor que levava aos quartos de ambas.
As criadas as esperavam. Yvette precisou ter pacincia, at que elas se retirassem.
Ento, passou pela porta de comunicao e entrou no quarto d; Kelda.
- Onde est? Depressa! Onde est? Ficarei louca, se esperar um minuto mais!
- Sei o que est sentindo, mas precisa ter cuidado, querida. Abriu a gaveta, pegou a carta que tinha escondido e entregou a Yvette.
- Oh, Rmy, eu amo voc! - exclamou a moa, beijando a carta antes de abri-la.
Atirou-se na cama de Kelda e, quando estava na metade da leitura ergueu os olhos brilhantes como estrelas.
- Amanh! Vamos embora amanh!
- No acredito! Como? Diga-me, como?
- Est tudo aqui. Deixe que eu leia para voc. - Sentou-se na cama, to excitada' que, por um momento, foi incapaz de ler uma nica palavra. Depois, comeou:
- "Eu a amo, minha querida, e sei que  imperativo partirmos imediatamente, antes que as coisas se compliquem e fiquem mais difceis do que j esto.
"Sei que estou correndo um grande risco, ao mandar esta carta com as flores que Sua Excelncia vai lhe entregar pessoalmente. O nico criado do palcio em que tenho 
confiana foi encarregado de arranjar

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flores para voc e me disse que no  seguro tentar subornar um empregado de seu tio- Nada Posso fazer" Portanto a no ser rezar para que esta carta chegue as suas 
mos"O que arranjei, e tudo depende de voc,  sairmos de Dacar amanh cedo, num navio ingls que vai diretamente para a Cidade do Cabo. Estaremos a salvo, assim 
que embarcarmos, porque os franceses no tm jurisdio sobre um navio ingls. O casamento pode ser feito a bordo, pelo capito, e voc ento ser minha esposa. 
Como vamos levar tempo para chegar  Frana, ser impossvel para lorde Orsett, ou para quem quer que seja, desfazer o que estiver feito. "
Yvette suspirou de felicidade.
O que ele quer dizer  que ser impossvel eles afirmarem que o casamento  nulo pelo fato de eu no ter tido permisso de meu tutor. E, at l, talvez eu j esteja 
esperando um beb.
Kelda ficou surpresa com esse raciocnio, mas esperou para ouvir a outra parte da carta, querendo saber como Rmy se arranjaria para que Yvette sasse da casa do 
tio.
- Ele escreve mais uma poro de coisas bonitas sobre o que vai sentir quando estivermos casados, mas oua a parte mais importante:
"Fiquei sabendo (e todo mundo, em Dacar, sabe o que acontece) que seu tio monta a cavalo todas as manhs e que hoje voc e Kelda o acompanharam. Amanh, ele provavelmente 
sair  mesma hora, s sete; voc deve dizer que est indisposta, e Kelda ir sozinha com ele.
"Assim que os dois sarem (e vou ficar escondido num lugar de onde possa v-los), chegarei numa carruagem e direi ao mordomo que o governador-geral foi informado 
de que um de seus parentes est gravemente enfermo e que voc tem que partir para a Frana imediatamente.
"Precisa estar pronta para sair comigo, assim que eu chegar. Iremos ento para o cais, a toda pressa, e embarcaremos poucos minutos antes de o navio zarpar, s sete 
e meia." Kelda respirou fundo e Yvette disse:
- No h ningum mais inteligente do que Rmy! No percebe que os criados vo ficar to perturbados que faro tudo o que ele disser? E, quando voc e o tio Maximus 
voltarem, estaremos longe de Dacar.

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- Parece um bom plano. E quanto a roupas?
- Roupas? - Suspirou. - Claro que Rmy se esqueceu disso Como  que posso ir para a Cidade do Cabo s com a roupado  corpo? - Sacudiu a cabea. - No importa. Irei 
nua, se isso significar que vou casar com Rmy e nunca mais vou ver o governador geral ou o tio Maximus.
- Espere um pouco. Tenho uma ideia.
- Que ideia, Kelda?
- Claro que no podemos pedir que tragam uma mala para um de nossos quartos. Pode parecer estranho e algum ir contar a seu tio. Mas no h que a impea de ser 
pouco convencional e de levar suas roupas em trouxas feitas com lenis.
Yvette fitou a amiga, atnita; depois, deu uma risada.
- Oh, Kelda! Kelda! Voc  to inteligente! Claro que posso fazer isso! Os criados vo achar estranho, mas no importa. Deixarei tudo pronto, aqui. Quando vocs 
sarem a cavalo e Rmy estiver vigiando, l fora, eu vigiarei aqui dentro. Depois, mandarei as criadas levarem os embrulhos para a carruagem.
Kelda teve outra ideia.
- Precisamos convencer lorde Orsett de que voc est indisposta e no deseja montar. Quando as criadas vierem,  melhor que esteja na cama. Nesse caso, temos que 
usar os meus lenis, e no os seus,
- Acha que elas desconfiariam de que eu estava fingindo doena e contariam a meu tio?
-  melhor no arriscar. Voc no sabe se ele a est espionando; seria um erro subestimar a inteligncia de seu tio. - Fez uma pausa, refletindo, com uma ruga entre 
os olhos. Depois, disse:
- No h dvida de que ele est surpreso por voc se mostrar to cordata. E, depois da primeira noite, Yvette, voc no falou em Rmy, embora tivesse dito que estavam 
noivos.
- Estamos contando com o fato de meu tio no conhecer bem as mulheres.
- Sim, mas  um homem muito inteligente. No est to desconfiado como antes, mas no posso acreditar que no ache algo curioso voc aceitar o pedido do governador-geral 
sem protestar, sem nem mesmo sugerir que o casamento seja adiado por mais um ou dois meses.
- Compreendo o que quer dizer. Talvez tenha sido um erro.

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- Agora isso no importa. Ao mesmo tempo, no pode dar um passo errado. As criadas viro nos acordar, como sempre, s seis e meia" e s eu estarei de p. Voc no 
deve dizer nada, quando elas abrirem as cortinas. Descerei e direi a seu tio que est muito cansada e prefere passar a manh na cama.
- Temos que nos arranjar com seus dois lenis, Kelda, em vez de quatro - disse Yvette, com esprito prtico.
Levaram tempo para colocar os melhores vestidos dela nos lenis, prendendo-os com alfinetes de gancho, para que os embrulhos pudessem ser levados para a carruagem 
e depois para o navio.
No lenol que forrava a cama de Yvette, guardaram os chapus e as sombrinhas. Uma fronha serviu para os sapatos. Depois de tudo pronto, esconderam os embrulhos no 
armrio de Kelda.
Yvette passou os braos em volta do pescoo da amiga.
- Obrigada, obrigada! Oh, minha querida, se eu conseguir mesmo fugir, amanh, ficarei grata a voc para o resto da vida!
- Tem que fugir! Se esse plano falhar, nunca mais ter outra oportunidade.
- Sei disso. vou rezar a noite inteira.
Yvette foi para a janela e ficou olhando as estrelas, como se j estivesse falando com Deus, invocando sua ajuda.
- De uma coisa estou certa, Kelda: se Rmy e eu formos casados pelo capito de um navio ingls, assim que chegarmos  Cidade do Cabo iremos a uma igreja catlica, 
para que nosso casamento religioso seja realizado por um padre.
- Garanto que Rmy j pensou nisso.
- Ele pensa em tudo. Est admirada por eu o amar tanto?
- Acho que Rmy  muito inteligente, e voc tambm. Quando for o primeiro-ministro da Frana, voc ser exatamente a esposa que convm a um primeiro-ministro.
As duas riram, emocionadas, quase com lgrimas nos olhos.
Yvette abraou Kelda mais uma vez. Depois, achando que era mais sensato descansar antes da excitao do dia seguinte, foram para a cama.
Kelda achou difcil dormir, sabendo que tudo dependia do planejamento de Rmy e de que no houvesse contratempos de ltima hOra. Tinha a horrvel sensao de que, 
de repente, lorde Orsett

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poderia resolver no sair a cavalo ou de que, pelo fato de Yvette no os acompanhar, talvez sassem atrasados, fazendo com que os dois namorados perdessem o navio.
Havia centenas de coisas que podiam acontecer, e Kelda no conseguia ficar calma. Levantou-se bem cedo, vestiu o traje de montaria que Yvette lhe havia dado, colocou 
o chapu, pegou o chicote e as luvas.
s seis horas, foi para o quarto da amiga. Yvette j estava meio vestida.
- Se eu ficar debaixo das cobertas quando a criada entrar, ela no vai perceber o que estou usando.
- A minha geralmente bate antes de entrar - disse Kelda. Assim. posso impedir que a sua abra as cortinas de seu quarto, dizendo que voc quer continuar dormindo.
- Suponhamos que elas contem ao tio Maximus e ele resolva no sair a cavalo...
- Sim, tem razo. Temos que agir normalmente. Voc apenas se mostre sonolenta e deixe que ela tire suas roupas do armrio, como de hbito... - Deu um grito de horror.
- Esquecemos que seu armrio est vazio! Oh, Yvette, temos que pensar em tudo! Se cometermos um erro agora, estaremos perdidas!
- Pensei nisso. Como v, meu traje de montaria est na cadeira. Guardei no armrio as roupas que vou usar para viajar e tirei a chave, para que a criada no possa 
abri-lo.
- Voc  mais inteligente do que eu - disse Kelda, humildemente. - Minha nica desculpa  que no tive tantas roupas como voc, no passado.
- Vai ficar contente por saber que estou lhe deixando muitas mais. Depois de tudo o que fez por mim, quando for ao nosso encontro, em Paris, vou dar-lhe as roupas 
mais maravilhosas que uma moa possa desejar.
- Quando acha que vai estar em Paris? Notando a voz sria da amiga, Yvette respondeu:
- Querida, sei que est pensando que o tio Maximus talvez a mande imediatamente de volta ao colgio da sra. Gladwin, desmoralizada. Aqui est todo o dinheiro que 
eu trouxe e que  suficiente para lev-la at Paris. Conforme Rmy sugeriu, quando chegar

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voc deve ir para a casa de minha tia e esperar por mim. vou escrever a ela e pr a carta no correio assim que chegar  Cidade do Cabo, contando o que aconteceu. 
Mas aqui est uma carta para voc levar  minha tia, apresentando-a a ela e dizendo-lhe o quanto voc  importante para mim. - Como pde pensar em mim, Yvette, numa 
ocasio dessas?
- Claro que penso em voc, porque lhe quero bem, minha querida. Se no fosse por voc, pela maneira inteligente com que fez que eu representasse meu papel diante 
do tio Maximus, a esta hora eu poderia estar numa masmorra ou presa num sto onde Rmy jamais me encontraria.
- No quero ser... um fardo... nem uma preocupao para voc.
- Nunca seria isso. Rmy e eu tomaremos conta de voc. E uma coisa lhe prometo: nunca mais voltar para aquela escola 
horrvel, onde o Drago a atormentava o tempo todo.
elda abraou a amiga, com lgrimas nos olhos. Depois, compreendendo que a nica coisa que importava no momento era Yvette estar pronta quando Rmy chegasse, tomaram 
o que Kelda chamava de "posio de combate".
Tudo correu perfeitamente bem. Quando a criada entrou para abrir as cortinas, Yvette, disse, com voz sonolenta:
- No vou me levantar agora. Chamarei, quando precisar de voc. A criada saiu, deixando no quarto uma bandeja com caf e brloches. Kelda entrou imediatamente no 
quarto da amiga.
-  melhor voc tomar o caf e comer alguma coisa, para no ficar fraca.
Yvette sorriu.
- No ficarei fraca, sabendo que vou ao encontro de Rmy. Para dizer a verdade, tenho a impresso de que tomei uma garrafa inteira de champanhe e estou flutuando 
no ar.
- Talvez v sentir isso, mas s depois que o navio tiver zarpado. Kelda acabou de se vestir, deu  amiga um beijo de despedida e, exatamente s dez para as sete, 
saiu do quarto. Disse a uma das criadas que esperavam no corredor:
- Mademoiselle est cansada e resolveu no sair a cavalo hoje. Mas, por favor, fique atenta, caso ela a chame, se precisar de voc.
Falou lentamente, para que as criadas entendessem bem o que dizia. Depois, desceu.

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Ela e Yvette j tinham levado as trouxas para o quarto de Kelda colocando-as junto  porta, Yvette estava pronta, com seu traje de viagem, esperando o momento em 
que lorde Orsett e a amiga partissem.
Eram esses os momentos cruciantes em que Kelda teria que explicar ao lorde que a sobrinha no iria com eles, mas que ela gostaria muito de montar.
Como elas, Orsett tomava s caf, antes de sair. Na vspera, todos os trs tinham tomado o desjejum no terrao, na volta.
No sabia onde o lorde se achava, mas, quando chegou ao saguo ficou aliviada, ao ver, pela porta aberta, que os cavalos estavam sendo trazidos das cocheiras.
Depois, ouviu passos no corredor que levava s dependncias particulares do dono da casa. Logo a seguir, ele apareceu.
Se Kelda no estivesse to agitada, teria notado, como na vspera, que ele estava muito elegante. Mas a moa s pensava no papel que tinha a representar, sabendo 
que uma escorregadela poderia prejudicar todo o futuro da amiga.
- bom dia, srta. Lawrence.
Teve a impresso de que ele estava de bom humor, pelo fato de Yvette ter sido to encantadora na vspera, no se opondo a seus planos.
- bom dia, milorde. Mas sinto dizer que Yvette lhe pede que a desculpe por no sair conosco esta manh.
- No est doente, est?
- No doente, no. Mas est cansada e, como o senhor previu, com o corpo dolorido. Vai descer para tomar o desjejum conosco quando voltarmos. A no ser,  claro, 
que prefira que eu no o acompanhe agora.
Kelda achava que, s pelo fato de sugerir que ele fosse sozinho. Orsett tomaria exatamente a deciso contrria.
- No vejo razo para ficar privada de seu exerccio - respondeu ele, imediatamente.
A moa esperou que sua expresso no demonstrasse o alvio que sentiu.
- Gostaria de ir, porque o senhor prometeu nos levar a lugares diferentes dos de ontem, e espero poder ver alguns animais selvagens.

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Talvez vejamos alguns. Mas eu pretendia mostrar-lhes hoje uma aldeia nativa e, principalmente, uma onde os nativos tingem os tecidos que j admirou.
Seria timo! Oh, por favor, leve-me at l!
Lorde Orsett sorriu e Kelda achou que ele se divertia eom seu entusiasmo.
Ainda no eram sete horas, quando desceram os degraus da frente e montaram os cavalos que os esperavam diante da casa.
Kelda tinha certeza de que, no meio das moitas cerradas e das rvores, Rmy vigiava sua partida. Desejou poder acenar para o rapaz e expressar sua alegria por ver 
que o plano estava dando certo.
Em vez disso, fez o animal andar o mais depressa possvel. Logo perderam a casa de vista.
Era uma linda manh. O vento que vinha do mar soprava no rosto de Kelda, enquanto eles seguiam pelo cho arenoso.
Tentou no pensar no que estaria acontecendo. Enquanto calvagavam, agora um pouco mais devagar, procurou chamar a ateno de lorde Orsett para os assuntos que mais 
o interessavam: a frica e o livro que escrevia.
- Ontem,  noite, estive pensando na magia que todo mundo associa  frica. Encontrou muita coisa neste sentido, em suas pesquisas?
- Na vida dos povos primitivos, as supersties e aquilo que chamam de "magia" tm um papel muito importante - respondeu o lorde. - Ontem, depois que me deitei, 
lembrei-me de uma magia que julguei que voc acharia interessante.
- Por favor, diga o que .
- Um adivinho ibo, por exemplo, invoca a verdade, antes de consultar seus dados. E vou recitar um poema que acho interessante
Ergueu ligeiramente o queixo, como se estivesse olhando para o desconhecido, e recitou:
- "Que ser, hoje?
Sucesso ou fracasso? Morte ou vida?
Qual  o esprito mau que atira sua sombra
Entre mim e a verdade? "
- Gosto disso! - exclamou Kelda.

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Achou que, de certo modo, se aplicava ao que estava acontecendo no momento. Ficou imaginando se, com uma obscura percepo lorde Orsett pressentia alguma coisa estranha.
- No final do poema, h dois versos que considero especialmente poticos - disse ele.
- "Aqui se levanta o Sol.
Veja a verdade sendo trazida, pelos raios do Sol. "
-  bonito, sim. - Houve um momento de silncio. Depois, ela disse: - vou ter prazer em ler seu livro.
- O primeiro volume est praticamente terminado.
Kelda fitou-o com ar indagador. com um leve sorriso, ele sugeriu:
- Se no achar muito difcil ler o manuscrito, posso d-lo para que o leia.
- Gostaria muito - respondeu Kelda, com sinceridade.
Mas pensou que, depois que voltassem para casa, no haveria oportunidade de ler o livro e nem mesmo de ficar em casa de lorde Orsett por muito tempo, a no ser o 
necessrio para fazer a mala e ser mandada embora no primeiro navio que aparecesse.
Esse pensamento a entristeceu, porque, nos dias em que estivera em Dacar, pouco tinha visto do lugar e de seu povo.
Pensando no quanto iria perder, cavalgou em silncio e sobressaltou-se, quando Orsett lhe perguntou:
- Por que est preocupada? Encarou-o, surpresa.
- Como sabe que estou... preocupada?
- No sou to obtuso nem to insensvel como parece pensar que sou.
Por um momento horrvel, acreditou que ele ia dizer que sabia dos planos para a fuga de Yvette e que sabia tambm que, naquele exato momento, ela estava presa no 
quarto, sem chance de se encontrar com Rmy.
Orsett continuou:
- Acho que  uma pessoa excepcionalmente sensvel, srta. Lawrence. As pessoas sensveis emitem fluidos que podem ser captados pelos que esto sintonizados para receb-los. 
Sei que alguma coisa a preocupa.
- Se for verdade, no vale a pena pensar nisso num lugar to bonito.
0

Continuou cavalgando. De repente, exclamou: - Olhe! Garanto que  uma aldeia nativa! Posso ver os telhados pontudos.
- Tem razo. Mas espero que me confie suas preocupaes, quando voltarmos para casa.
Kelda achou que havia tanta coisa fascinante, que ficou durante muito tempo vendo a tintura dos tecidos e tambm ouvindo msica. Fez isso por estar interessada e 
tambm por temer o momento em que, ao chegar em casa, lorde Orsett ficasse sabendo da fuga da sobrinha.
Um rapaz alto, de ombros largos, tocou uma cora para ela e Orsett. Uma cabaa grande, com cordas feitas de fibras, servia de instrumento. Emitia um som claro, suave, 
que Kelda achou que seria timo como acompanhamento para as canes ou como parte de uma orquestra para os danarinos.
Quando voltavam para casa, lorde Orsett comentou:
- A prxima coisa que voc e Yvette precisam ver  a dana. No Senegal, a dana expressa todos os aspectos de vida. Os danarinos usam nos tornozelos uns sininhos, 
ou uns guizos feitos de gros enrolados em folhas.
- Parece fascinante.
Havia na voz de Kelda uma nota tristonha, porque sabia que ia deixar Dacar sem ver os danarinos. Poderia apenas imagin-los, no futuro, assim como no passado tivera 
que imaginar tudo o que havia sido bonito em sua vida.
Achando que via aquilo pela ltima vez, olhava ao redor, procurando no perder nada da beleza do cenrio, as rvores, as flores, as frutas, os animais e tambm as 
pessoas.
Viu, entre uma aldeia e outra, mulheres carregando fardos na cabea. Nos campos havia homens trabalhando com instrumentos de madeira, que achou que deviam ser antiqussimos.
Depois, finalmente, surgiram o mar e o telhado da casa de Orsett contra o cu.
O corao de Kelda comeou a bater, agoniado. Seus lbios estavam Secos e sentia dificuldade em responder a lorde Orsett.
Dois cavalarios esperavam  porta. O lorde desmontou e ajudou Kelda a descer.
Quando subiu a escada da frente, teve a impresso de que a terra ia se abrir e engoli-la.
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No saguo, ao lado de outros criados, estava o senhor idoso qUe havia recebido as duas moas no cais.
- bom dia, Bonnier - disse lorde Orsett.
Kelda teve a impresso de que estava surpreso por ver o homem ali
- Preciso inform-lo, milorde, de que, assim que o senhor saiu chegou aqui uma carruagem do palcio, com um recado do governador-geral. Um dos parentes de mademoiselle 
Yvette est grave. mente enfermo, em Paris, e ela teve que partir imediatamente, embarcando, num navio que saiu de Dacar s sete e meia.
Lorde Orsett ficou imvel, ouvindo, e Kelda fez o mesmo.
- Mademoiselle embarcou no navio? - perguntou ele, dali a um momento.
- Parece que sim, milorde. J tinha sado daqui, quando fui informado do acontecido.
- Quem  que veio do palcio para busc-la? Kelda prendeu a respirao.
- No sei como se chama, milorde, mas  moo, um dos ajudantes-de-ordens de Sua Excelncia.
Orsett apertou os lbios e, pela primeira vez, desde que Bonnier comeara a falar, olhou para Kelda.
- Devemos conversar, srta. Lawrence: - Havia em sua voz um tom que fez com que a moa estremecesse.
Ele atravessou o saguo e abriu a porta de uma sala. Kelda o seguiu.
O lorde virou-se para ela.
- Sabia que isso ia acontecer. Exijo uma explicao.
Por um momento, a moa achou que seria incapaz de falar. Depois, com uma voz que queria que fosse calma, mas que na realidade soou apavorada, respondeu:
- O senhor no podia ser to... tolo... a ponto de pensar que, amando Rmy como ama, Yvette se submeteria a seus planos de obrig-la a casar com outro homem.
- Quem planejou tudo? - perguntou ele, zangado.
- Ser que isso importa? Eles vo casar sem o seu consentimento, mas no creio que possa fazer alguma coisa a esse respeito.
- Posso fazer o navio parar em St. Louis - respondeu o lorde, furioso. - Seja como for, quando chegarem a Marselha, farei com que aquele homem seja preso por raptar 
uma menor.

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Sua voz estava to encolerizada, que pareceu ecoar por toda a sala.
E de que isso adiantar, se Yvette... at l... estiver esperando um filho?
Viu pela expresso de Orsett que tal possibilidade no lhe havia ocorrido.
Depois, com uma exclamao que poderia ter sido uma blasfmia, ele foi para uma das janelas. Ficou por um momento olhando o mar. Compreendendo, de certo modo, o 
que sentia por ver seus planos irem por gua abaixo, Kelda disse, hesitante:
- Sinto muito, se est zangado... mas o amor, o verdadeiro amor, no pode ser sufocado nem esquecido da noite para o dia, como o senhor parece achar que pode.
Lorde Orsett nada disse, nem se moveu. Kelda continuou:
- Yvette vai ser feliz. Como  uma criatura doce e encantadora, certamente o senhor h de querer que seja feliz.
com voz spera e encolerizada, ele respondeu:
- Suba e v trocar de roupa! Espero que esteja pronta para me acompanhar dentro de vinte minutos!
Kelda queria perguntar aonde iam, mas estava assustada demais.
Quando chegou ao alto da escada, ouviu Orsett chamar Bonnier. Talvez estivesse tomando providncias para mand-la embora, pensou, sentindo tamanha depresso que 
parecia estar caindo num abismo profundo.
"Se eu tiver que ir embora, vou ficar sozinha novamente. Embora Yvette e Rmy tenham sido muito bons, no perteno a nenhum lugar, nem me sentiria feliz como me 
senti aqui. "
Olhou para trs, do alto da escada, e viu monsieur Bonnier apressando-se para atender ao chamado do lorde.
- Que vai acontecer comigo? - murmurou.
Desesperada, percebeu que, novamente, como quando seus pais morreram, o mundo tinha chegado ao fim e que nada mais restava, a no ser a insegurana e o medo.

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CAPTULO VI
Kelda desceu a escada lentamente, como se cada passo exigisse um esforo.
Quando subira, a criada j tinha preparado seu banho. Deitada na gua perfumada, pensou como tinha sido difcil tomar um bom banho na escola da sra. Gladwin.
Havia banheiras para as alunas, mas, quando Kelda queria lavar-se, tinha que usar um banheiro velho, anexo  cozinha e que no era pintado h muitos anos.
A gua precisava ser aquecida no fogo e levada em latas pesadas demais.
A alternativa era tomar banho frio e enxugar-se numa toalha p quena, s vezes at rasgada, que a sra. Gladwin achava que servia muito bem para ela.
Poder tomar banho confortavelmente, ser servida, ver seus vestidos passados depois que os usava eram coisas que apreciava cada vez mais, desde que viera para a casa 
de lorde Orsett.
Agora, isso ia acabar, assim como todo os prazeres. Teria que abandonar o Senegal, levando apenas a lembrana da beleza do lugar
Pela porta aberta, podia ver o vermelho chamejante dos hibisco

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e mais adiante, em grande profuso junto aos portes, o tom arroxeado das buganvlias.
Desde que estava em Dacar, achava que o colorido das flores a aquecia tanto quanto o sol; quando pensava no frio da Inglaterra em janeiro, estremecia.
Depois de pronta, desceu e, amedrontada, entrou no salo onde achou que lorde Orsett a esperava. "
Ele estava na outra extremidade. Quando se aproximou, Kelda teve a impresso de que andava quilmetros, em vez de metros, at alcan-lo.
No tinha coragem de encar-lo, sabendo que ele estaria de cara fechada e to zangado como antes.
Quando a moa chegou perto, Orsett disse, com uma voz spera, que no a surpreendeu:
- Resolvi dar-lhe o direito de escolha.
Kelda olhou para ele vivamente, viu-lhe a expresso severa e imediatamente desviou o olhar.
- Escolha... - perguntou, com dificuldade em falar.
- Voc entrou em conluio com minha sobrinha para fazer com que meus planos gorassem, planos que fiz com grande cuidado. Agora, posso lev-la ao palcio do governador-geral 
ou ao Falais de Justice.
Kelda teve um sobressalto. Depois de momentos de silncio, perguntou, em voz trmula:
- O senhor mandaria... me prender?
- Era o que merecia. Mas o que estou sugerindo  que, ou voc toma o lugar de minha sobrinha e casa com o governador-geral, ou casa comigo!
Kelda deu um gritinho, assustada. Depois, sem pensar, disse:
- O senhor deve estar louco!
- Estou apenas sendo prtico. Fiz Yvette vir para c com uma Inteno especial. E, j que voc resolveu desafiar minha autoridade e agir por conta prpria, tem que 
reparar o que fez.
-  impossvel que esteja realmente dizendo... que eu case comi... o governador... ou com o senhor!
-  exatamente o que estou dizendo. Conforme j lhe expliquei, e muito importante, para o futuro de Dacar, que haja aqui mulheres

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europeias, numa sociedade predominantemente masculina. Como est qualificada, a escolha  sua!
- Acredita realmente que eu aceitaria semelhante sugesto e concordaria em casar em tais circunstncias?
- Creio que no h alternativa, mas, se precisar de um estmulo para fazer o que lhe proponho, estou disposto, caso concorde com meus planos, a no processar o rapaz 
que voc considera um marido to adequado para minha sobrinha.
Kelda prendeu a respirao. Compreendeu que lorde Orsett estava tornando impossvel uma recusa de sua parte.
Ao mesmo tempo, todo o seu ser, todos os seus instintos se revoltavam, dizendo-lhe que isso era to odioso e to diablico para ela como havia sido para Yvette.
Como poderia pensar em casar com um homem como o governadorgeral, que no apenas era um velho, como at agora a considerava apenas uma companhia da mulher com quem 
pretendia casar?
Quanto a lorde Orsett...
Seus pensamentos de repente se interromperam.
Ocorreu-lhe, de maneira insidiosa, como se algum sussurrasse ao seu ouvido, que ali estava a oportunidade de ficar em Dacar, nessa terra de sol e de flores; oportunidade 
de no ter mais medo do futuro, quer na Frana, quer na Inglaterra.
Ficaria em segurana, no teria mais o estigma de uma criatura que vivia da "caridade pblica".
A perspectiva de liberdade brilhou ante seus olhos.
Teve a impresso de que, instintivamente, estendia os braos para agarrar essa liberdade. Mas sabia que, para obt-la, teria que aceitar lorde Orsett como marido, 
um homem zangado com ela por ter ajudado Yvette a fugir e mais assustador do que Kelda jamais imaginara que um homem podia ser.
A voz do lorde interrompeu seus pensamentos.
- E ento? Resolveu? Imagino que achar sua posio, como esposa do governador-geral, bastante importante para compensar as deficincias que ele possa ter.
Sabia que Orsett zombava dela, com aquele tom cnico na voz que Kelda achava mais assustador do que quando ele esbravejava. Juntou as mos e sentiu que estavam frias 
e trmulas.

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- Tenho mesmo que... escolher? - perguntou, com uma voz que era apenas um murmrio.
- Pode tambm voltar para a Inglaterra, mas tratarei o jovem Mendes com a severidade que merece!
Pelo tom de lorde Orsett, Kelda percebeu que no adiantava pedir piedade ou compreenso.
Quando o conhecera, achara que era um conquistador, um homem que sempre conseguia o que queria, que derrubaria qualquer oposio pela simples fora de seu carter.
Se dizia que puniria Rmy, certamente o faria. E Kelda achava inconcebvel que ela destrusse a felicidade tanto do rapaz quanto de Yvette.
Alm do mais, embora fosse egosmo de sua parte, sabia que, se os dois se separassem, se Rmy fosse para a priso, no haveria lugar para ela, Kelda, em Paris.
Nesse caso, voltaria para o colgio da sra. Gladwin, onde teria que suportar uma vida de servido igual  que levava antes de vir para o Senegal.
Impaciente por uma deciso da moa, lorde Orsett tirou o relgio do bolso do colete e olhou as horas. Depois que o guardou, ouviu Kelda dizer, em tom apenas audvel:
- Casarei com o senhor.
- Tem certeza de que  o que deseja? Ela respirou fundo.
- Primeiro, h uma coisa que preciso... contar-lhe. Depois, acho que no vai mais querer casar comigo. E o governador certamente no me aceitar como esposa.
Teve a impresso de que lorde Orsett ficou surpreso.
Afastou-se dele e. foi para uma das janelas, olhando para o mar com olhos que nada viam, como no viam as flores abaixo do terrao.
Achando profundamente humilhante ter que contar o que era Preciso dizer, agarrou-se ao peitoril da janela. Ficou assim durante o que pareceu um longo tempo. Depois, 
ouviu a voz de lorde Orsett, atrs dela:
- Estou esperando.
- No sou o que pareo ser - comeou Kelda, com esforo. Vim para c aparentemente como amiga e acompanhante de Yvette, mas na realidade fui mandada numa posio 
diferente.

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Embora Orsett nada dissesse, Kelda teve a sensao de que estava surpreso e sentiu que chegava um pouco mais perto dela.
- Quando meus pais morreram, num terremoto na Turquia, fui mandada para um orfanato, onde vivi da... caridade pblica. - No pde conter um soluo, ao se lembrar 
das palavras que lhe tinham sido atiradas no rosto tantas vezes e que ainda doam. - Fiquei l durante trs anos. Quando fiz quinze anos, fui mandada como... criada 
para a escola da sra. Gladwin.
- Como criada? - repetiu lorde Orsett, como seno tivesse ouvido direito.
- Uma criada para todos os servios, que fazia tudo o que ningum mais queria fazer. Esfregava o cho, lavava a loua, estava  disposio das outras criadas.
Achou que lorde Orsett estava atnito demais para falar e que ela precisava terminar sua histria.
- H dois anos, fui promovida para servir as professoras, ajudaias alunas a consertar suas roupas... - Por uma razo inexplicvel, querendo ser completamente honesta, 
confessou: - Procurei deliberadamente atrair a simpatia de Yvette, porque queria melhorar meu francs. Ela ficou gostando de mim e se tornou... minha amiga.
- Virou-se para Orsett e sua silhueta ficou delineada contra o sol que entrava pela janela. - Quando o senhor mandou chamar Yvette, ningum quis acompanh-la. As 
professoras se recusaram a vir. Ento, recebi ordem de acompanh-la como sua criada particular... e de voltar o mais depressa possvel para a escola.
Apesar de estar de frente para Orsett, no ousava encar-lo. Mas olhou-o de relance e percebeu que no estava mais com ar to zangado.
- De quem foi a ideia de voc passar por amiga de Yvette e usar suas roupas?
- Eu usava os vestidos cinzentos, pobres e feios, idnticos aos que tinha usado no orfanato. Foi Rmy Mendes que achou que eu poderia ajudar a convenc-lo, milorde, 
de que ele e Yvette deviam casar, se eu estivesse vestida de maneira mais adequada.
- Ento, esperava oposio de minha parte e pretendiam me enganar, mesmo antes de chegarem  frica?
- Yvette achou que o senhor no ia concordar com o casamento

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porque ela  muito jovem. Nunca imaginou que poderia estar planejando cas-la com um velho que ela nem conhecia.
- Muitas mulheres considerariam esse casamento vantajoso, do ponto de vista social.
- Mas Yvette estava... apaixonada.
- Ao passo que, em seu caso, esse problema no existe.
- Acha realmente que um francs, e todos eles so muito esnobes, creio eu, iria querer por esposa uma moa que tivesse vivido da... caridade pblica?
- Acontece que no estamos discutindo os sentimentos dos franceses: voc disse que prefere casar comigo.
- Como  que o senhor, logo o senhor, poderia casar com uma mulher que passou oito anos vivendo em circunstncias que fariam com que todo mundo a considerasse marginalizada? 
- perguntou Kelda, agora em tom encolerizado.
Sentia que lorde Orsett a torturava deliberadamente. Contara a verdade e agora ele exibia a seus olhos a posio que ela poderia ter tido, se continuasse a engan-lo 
e no fosse to honesta. Como se adivinhasse seus pensamentos, Orsett disse:
- Voc no precisava ter me contado isso.
- Suponhamos que descobrisse, depois. Suponhamos que os jornais descobrissem e revelassem a vida que sua esposa levou antes de se tornar... uma dama. - Kelda suspirou. 
- Contei-lhe a verdade e creio que agora vai providenciar para que eu parta, assim que houver um navio para a Europa.
- Ento, quer voltar para a Inglaterra?
Kelda quase gritou que era a ltima coisa que queria, agora ou sempre.
De novo achou que precisava ser honesta.
- Rmy e Yvette disseram que me arranjariam um emprego, se eu fosse para Paris.
- Para fazer o qu?
- Rmy tem trs irms. Disse que tinha certeza de que uma "elas iria querer que eu ensinasse ingls aos filhos.
Ento, prefere ser uma governanta que aceita as migalhas da "tesa de um homem rico, a ficar aqui e casar comigo! Kelda fitou-o.
ao
- Quer dizer que, depois de tudo o que lhe contei, ainda quer casar comigo?
- No gosto de que meus planos sejam contrariados. Se estiver pronta, iremos ao Falais de Justice, onde os casamentos se realizara diante do prefeito, como  obrigatrio 
pela lei francesa.
Kelda encarou-o, incrdula.
- Tem certeza de que est fazendo a coisa certa?
-  o que desejo fazer - respondeu lorde Orsett, com altivez. O espanto deixou-a em silncio. No havia nada que pudesse dizer, nada que pudesse fazer.
Achou que no podia ser verdade que fosse casar com um homem que, em sua opinio, no js a encarava com clera, como com repulsa. Mas qual a alternativa?
No podia permitir que ele processasse Rmy, e, mesmo que ela desejasse fugir, para onde iria?
Atravessou a sala e, quando Orsett abriu a porta, passou por ele de cabea baixa, com medo de ver-lhe a expresso.
Uma carruagem aberta, com um toldo branco, os esperava l fora.
Kelda subiu e, somente quando se afastavam da casa, pensou que nunca, nem em seus sonhos mais loucos, tinha imaginado que casaria em Dacar e, muito menos, nessas 
circunstncias.
Quando via Yvette e Rmy juntos, apaixonados e felizes, involuntariamente rezava para que um dia tambm ela encontrasse o amor. Era uma coisa pela qual ansiava, 
porque, desde a morte dos pais, ningum a havia amado; ningum, a no ser Yvette, lhe manifestara afeio.
Instintivamente, sabia que havia dentro dela alguma coisa que no podia ser expressa de nenhum modo, a no ser pelo amor. Sabia que a beleza que encontrava na msica, 
nos livros que lia, nas flores to abundantes no Senegal fazia parte de uma emoo que significava querer amar e ser amada.
Agora, ia casar sem amor. Sentiu um frio no corao.
"vou casar! "
Era impossvel aceitar que aquilo estava realmente acontecendo, que no era um produto da imaginao. Como mulher, olhou para suas roupas, a fim de se certificar 
se eram apropriadas para a ocasio.
Enquanto se vestia, estava to assustada com a clera de lorde inn
Orsett, que no pde pensar em mais nada, a no ser no que iria ele fazer para castig-la. Assim sendo, deixou que a criada escolhesse o vestido.
Viu agora que era um dos favoritos de Yvette, cor-de-rosa, com uma faixa de tom mais forte que combinava com as rosas que enfeitavam o chapeuzinho de palha.
Na realidade, no podendo usar branco, era a melhor escolha para uma noiva, no dia que deveria ser o mais feliz de sua vida.
Mas, para Kelda, rosa era a cor do amor. E, no dia de seu casamento, no havia amor; apenas medo e apreenso.
Chegaram ao Falais de Justice. Monsieur Bonnier esperava por eles  porta.
Kelda calculou que lorde Orsett o tivesse mandado na frente para fazer os preparativos. Ficou admirada ao perceber que ele tinha certeza de que seria o escolhido 
para marido, mesmo antes de conhecer o passado da noiva.
Lorde Orsett havia falado como se achasse que ela escolheria a posio de esposa do governador-geral. Apesar disso, l estava Bonnier, esperando! Quando desceram 
da carruagem, Kelda ouviu-o dizer ao lorde:
- Est tudo providenciado, milorde. O prefeito est  sua espera. Um funcionrio inclinou-se profundamente diante de Orsett e levou-os por vrios corredores, at 
uma parte do palcio onde no se cuidava de processos criminais. Abriu uma porta e anunciou:
- Lorde Orsett, senhor prefeito!
Um francs idoso levantou-se de trs de uma escrivaninha grande, com um sorriso alegre.
Quando voltavam para casa, Kelda notou que, desde que deram ao Prefeito as respostas convencionais que os tornaram marido e mulher, lorde Orsett no lhe dirigiu 
a palavra uma nica vez, o mesmo tendo acontecido na ida.
Achou que devia dizer alguma coisa, mas no conseguiu, pois se Sentia intimidada.
Estava casada! Era lady Orsett!
No podia ser verdade que, aps oito anos de misria e humilhao, aps ter sido dominada e desprezada pela sra. Gladwin, estivesse agora numa posio que seria 
invejada por todas as moas do colgio.
"Na realidade, qualquer uma trocaria de lugar comigo. "
Tinha ouvido as conversas das moas sobre o futuro, e sempre se mostravam interessadas em casar com um homem rico e aristocrata.
Nunca achara que o amor entrasse nas cogitaes daquelas moas, embora dessem risadinhas ao recordar os elogios que tinham recebido, nas frias, de rapazes que sempre 
procuravam roubar-lhes um beijo.
Mas, no que dizia respeito a casamento, o caso era outro e elas tinham uma ideia definida sobre a posio que desejavam ocupar na sociedade, no futuro.
Em muitos casos, at aceitavam, de maneira surpreendentemente cordata, a ideia de um casamento arranjado entre seus pais e os pais do noivo.
Kelda ouvia essas conversas com pouca ateno, porque geralmente estava mais interessada em aprender o que pudesse, nos livros que lhe emprestavam.
Agora, se lembrou do que tinha ouvido e teve certeza de que havia feito um bom casamento, que seria aprovado pela me de qualquer uma das alunas do colgio.
"Mas eu quero... amor", disse a si mesma. Depois, achou que era exigir muito.
Devia estar grata, profundamente grata por no precisar mais voltar para a escola da sra. Gladwin, nem ir para Paris e aceitar o que lorde Orsett descrevera como 
"as migalhas da mesa de um homem rico".
Ao mesmo tempo, porque o homem silencioso a seu lado era seu marido, sentia o corao bater acelerado, os lbios secos a ponto de no poder falar.
Quando a carruagem atravessou os portes, Kelda achou que os hibiscos tinham um tom chamejante, mais vivo, contra a brancura da casa, do que quando ela havia sado 
dali.
"Este  o meu lar! Uma coisa que no tive mais, desde criana! "
A carruagem parou e lorde Orsett disse:
- Vamos almoar imediatamente. Creio que no tomou seu desjejum hoje e deve estar com fome.
Falou com tanta naturalidade, que Kelda conseguiu responder:
- Sim, agora que penso nisso, acho que estou com fome. milorde.
Imaginou se, agora que estavam casados, devia continuar chamando-o de "milorde", mas era muito tmida para cham-lo pelo primeiro o nome.
No querendo que ele esperasse, tirou o chapu no saguo e entregou-o a um dos criados. Sem se preocupar mais com a aparncia, ajeitou os cabelos com a mo e ficou 
esperando que Orsett dissesse para onde deviam ir.
- Uma garrafa de champanhe! - ordenou ele ao mordomo. - E diga ao chef que queremos almoar imediatamente.
Foi para o terrao e Kelda o seguiu.
O sol brilhava nas guas do mar. Uma leve brisa suavizava o calor e trazia o perfume das flores.
Kelda sentiu uma estranha excitao, quase como se j tivesse tomado champanhe.
No precisava mais ir embora! Podia ficar ali, admirar a beleza  sua volta. No precisava mais ter medo do que pudesse dizer, porque no havia necessidade de segredo 
nem de ter cuidado.
Olhou para o cenrio, como se o visse pela primeira vez. Depois percebeu que Orsett sentara-se a uma mesa, sob um toldo, e a observava.
Virou-se para ele, impulsivamente.
-  lindo!
J tinha dito isso uma dezena de vezes, quando andavam a cavalo, quando olhava para as peas entalhadas que ele possua. Na realidade, sempre que conversavam sobre 
alguma coisa relacionada com o Senegal.
Agora, foi uma exclamao mais emocionada, que vinha do fundo do corao, porque aquela beleza se tornara parte dela, pois Kelda Pertencia ao lugar.
Lorde Orsett no respondeu, porque os criados chegaram com o champanhe. Serviram duas taas, e Orsett ergueu a sua.
- Ao nosso futuro!
Essas palavras a surpreenderam.
- Espero poder torn-lo... feliz - respondeu, depois de um Comento de hesitao, por no saber o que dizer.
Mas achou pouco provvel que conseguisse. Tinha a impresso de

que ele nunca seria feliz. O cinismo e talvez o dio estavam por Demais arraigados nele.

10"
No entanto, ela teria que tentar. Era o que a me esperaria dela mas Kelda se sentia inadequada.
Que conhecia ela a respeito dos homens? Certamente, nada, a respeito de um homem auto-suficiente como lorde Orsett. Que preparo tinha tido para a vida que agora 
ia levar?
Humildemente, chegou  concluso de que era a pessoa errada para casar com ele; estava convencida de que Orsett tinha feito isso apenas porque no gostava de perder.
No podia deixar que seu plano casse por terra e que tivesse que recomear tudo para encontrar uma mulher europeia que quisesse vir morar em Dacar.
Achou tambm que ficaria humilhado, ao ter que explicar ao governador-geral que Yvette no apenas tinha preferido fugir, a casar com ele, como tambm um dos funcionrios 
do palcio participar dessa fuga.
A situao era extremamente desagradvel para Orsett quee Kelda percebeu que estava com pena dele.
- O almoo est servido - anunciou um dos criados. Atravessaram o corredor que levava  sala de jantar.
A me de Kelda sempre dizia que era falta de educao as pessoas partilharem de uma refeio sem conversar. Por isso, e tambm porque havia criados na sala, Kelda 
se esforou para conversar; sobre coisas sem importncia.
- No se esqueceu de que prometeu me mostrar o manuscrito de seu livro, no ? - perguntou ela.
- No esqueci.
- Como foi que comeou essa tarefa gigantesca de escrever u; livro de Histria?
- Comecei lendo sobre a frica. Li sobre a vinda dos fencios para c. Depois, vieram os gregos, seguidos pelos romanos, os vndalos, os bizantinos e os primeiros 
muulmanos.
- Parece fascinante, mas trabalhoso.
- E .
- Sempre ouvi dizer que a religio muulmana tem um lado mstico.
- Vejo que sabe mais do que eu esperava. Assim sendo, vai apreciar o que escrevi.
- Ser muito interessante para mim.
Continuaram falando sobre os vrios povos que habitavam a frica.
Kelda tinha a impresso de que ele no estava mais zangado. Como realmente se interessava pelo assunto, encheu-o de perguntas e, por um momento, se esqueceu do estranho 
relacionamento entre eles.
Dirigiu-se a Orsett como a um homem que poderia lhe contar tudo o que queria saber, como de fato podia.
Depois que o caf foi servido, os criados se retiraram. Pela primeira vez, desde que tinham sentado  mesa, Kelda ficou constrangida e tmida. Havia muitas perguntas 
que queria fazer sobre o futuro de ambos, mas no sabia por onde comear.
Tinha a impresso de que tambm ele estava pesando as palavras, mas havia qualquer outra coisa, ela no sabia bem o qu. Sabia apenas, apreensiva, que Orsett pensava 
nela e estava ansiosa para saber quais eram esses pensamentos.
De repente, a porta se abriu e uma mulher entrou na sala.
No primeiro momento, como a mulher estava vestida como nativa, Kelda pensou que fosse uma criada e mal olhou para ela.
Depois, ao ver que Orsett se contraa, olhou de novo e notou que a recm-chegada era muito atraente e, certamente, uma misse. No havia dvida quanto aos traos 
europeus do rosto bonito. Ao mesmo tempo, a pele cor de caf indicava que descendia de africanos.
Tinha um belo porte. Os cabelos estavam penteados com uma poro de trancinhas onduladas nas pontas, no estilo caracterstico dos penteados das nativas de Dacar, 
conforme Kelda j tinha notado. Usava um boubous, gren. Suas jias de ouro, entremeadas de mbar, eram muito valiosas.
Dirigiu-se para a mesa com muita segurana, olhando para lorde Orsett.
- O que quer, Antoinette? - perguntou ele, em francs.
- Ouvi dizer, no mercado, que voc casou. No posso acreditar que seja verdade, nem que voc no me informasse antes que a cerimnia se realizasse.
- Pretendia fazer isso hoje  noite.
Antoinette ia dizer qualquer coisa, mas Orsett se levantou.
- J que veio aqui, podemos conversar em outra sala. Dirigiu-se para a porta, abriu-a e saiu. A mulher seguiu-o, sem nem mesmo relancear o olhar para Kelda. Era 
inegvel que se movia com muita graa, fazendo com que Kelda se lembrasse das gazelas que tinha visto durante o passeio a cavalo.
A moa ficou sentada  mesa, como que petrificada.
Ento, era essa a mulher de quem um dos primos de Yvette tinha falado, explicando qu se tratava de uma mtisse. Compreendia o que Orsett sentia por ela, porque 
era realmente muito bonita e viosa.
Passou-se um quarto de hora. A excitao e a alegria de se sentir segura, emoes que Kelda experimentava antes do almoo, tinham desaparecido. Sentia uma sbita 
depresso, como se uma nuvem cobrisse o sol.
Ao responder ao brinde de Orsett, dissera que esperava poder faz-lo feliz, mas agora entendia que no precisava se dar a esse trabalho, porque ele tinha Antoinette.
Achou que sua vida ia ser muito vazia, quando s o que o marido exigia dela era servir de instrumento para convencer outras mulheres, principalmente francesas, a 
virem morar em Dacar.
Pessoalmente, nada podia fazer por ele. Era apenas um smbolo, e, evidentemente, Orsett a acharia cada vez mais irritante e nem fingiria apreciar sua companhia.
Durante todos os anos em que havia adquirido fama de ser um recluso, ele se contentara com escrever seu livro e com a companhia de Antoinette.
Kelda ficou pensando como devia parecer pouco atraente, comparada  mestia.
Antoinette era alta, com o porte elegante das pessoas que durante geraes andaram com um fardo na cabea. Devido ao sangue francs, devia ter o mesmo encanto e 
a mesma alegria de viver caractersticos de Yvette.
Kelda sempre achara que os franceses tinham um encanto com o qual os ingleses no podiam rivalizar. Antoinette certamente teria o esprito vivo do pai e a calma 
aceitao da vida, herdada da me africana. E tambm, o mistrio e a magia dos quais Kelda e lorde Orsett falavam pouco antes.
Ficou imaginando h quantos anos Antoinette e Orsett viveriam juntos, anos em que talvez ele a tivesse amado, como a nativa tambm o amara.
Mas no podia casar com ela, mesmo que o desejasse. Talvez, no ntimo, Antoinette alimentasse essa esperana, agora destruda, j que ele casara com outra.
Lorde Orsett apareceu.
Parecia tranquilo e voltou sem pressa para seu lugar  cabeceira da mesa.
Kelda observava-o.
Que, teriam os dois falado? Que teria acontecido quando ficaram a ss?
Lorde Orsett sentou-se e pegou seu copo de conhaque.
- Peo desculpas por essa interrupo fora de propsito - disse, com o habitual tom cnico. - Antoinette queria garantir seu dinheiro e agiu de um modo pouco convencional, 
vindo receb-lo pessoalmente.
Sua maneira de falar, a indiferena com que tratava o assunto, tudo fez com que Kelda de repente se zangasse. Levantou-se, protestando:
- Tenho certeza de que no  verdade! No sei como pode falar desse jeito de algum que... o ama! Embora voc talvez o ignore, as mulheres tm corao!
Sua voz quebrou-se num soluo. Depois, no suportando que Orsett visse o quanto a magoara, saiu correndo da sala e foi para o andar de cima.
No patamar, encontrou uma criada. Quando Kelda se dirigia para seu quarto, a moa disse:
- Por aqui, senhora.
Lutando para se controlar, Kelda no quis discutir e seguiu a empregada at um quarto grande, que ainda no tinha visto.
Havia ali uma cama de casal larga, com quatro colunas e um mosquiteiro branco, que davam ao mvel a aparncia de uma galera com sua vela.
Mas no se interessou pelo quarto. S o que desejava era ficar sozinha.
- A senhora precisa descansar.  hora da sesta.
No confiando em sua voz, Kelda nada disse e deixou que a criada a ajudasse a tirar o vestido rosa.
Depois a moa enfiou pela cabea da patroa uma camisola enfeitada de renda, presente de Yvette. Antes que se desse conta do que

107

acontecia, Kelda se viu na cama, as cortinas da janela cerradas. porta se fechou silenciosamente, quando a criada saiu.
Kelda escondeu o rosto nas mos e desatou a chorar. Chorou com desespero, como no fazia desde a morte dos pais.
No sabia explicar por que se sentia to infeliz.
Parecia que de novo o mundo rura  sua volta, que seus sonhos se esfacelavam.
Kelda acordou, percebeu que tinha dormido durante muito tempo e notou que algum se movia cuidadosamente pelo quarto.
Abriu os olhos. Quando se deitara, o sol estava quente, e o dia, claro.
Agora estava escuro.
Pensou que fosse apenas porque as cortinas continuavam fechadas, ms depois notou que anoitecera e que a criada acendia as velas sobre a penteadeira.
- Que horas so?
- Sete horas. J preparei seu banho, senhora.
- Sete horas? - repetiu, tolamente.
Sabia que dormira tanto no apenas por estar muito cansada, tendo passado a noite anterior quase em claro, como tambm por ter chorado ao ponto de exausto.
- Creio que preciso me levantar - disse, como se esperasse que no houvesse necessidade disso e pudesse ficar ali sozinha, em vez de ir ao encontro do homem que 
agora era seu marido.
- O jantar  s oito, senhora, e o patro no gosta de esperar. As palavras da criada, ditas num francs hesitante, fizeram com que Kelda sasse da cama.
O banho foi refrescante. Lavou o rosto em gua fria, na esperana de apagar os sinais das lgrimas. Depois achou que Orsett nada perceberia. Provavelmente, tinha 
ido procurar consolo ao lado de Antoinette.
com certeza, passavam o tempo na parte da casa reservada a ele. E Orsett acharia Antoinette muito bonita, e ela o divertiria e o faria rir...
Kelda disse a si mesma, severamente, que no devia pensar na mtisse. Fazia parte da vida secreta de lorde Orsett, na qual nem mesmo uma esposa devia interferir.

108

Agora compreendia por que ele se contentava em viver na frica e no voltar para a Inglaterra.
Os parentes pensavam que era apenas por ele ser um recluso, mas nenhum homem precisaria de companhia, quando tinha uma criatura bonita como Antoinette por...
Kelda se obrigou a pronunciar a palavra:
- amante?
Tendo levado uma vida protegida desde a morte dos pais, conhecia pouqussimos homens e nada sabia do comportamento deles, ou sobre o que pensavam em relao s mulheres.
O pouco que sabia era por ter ouvido trechos de conversas das moas no colgio, ou por ter lido a respeito nos livros que lhe emprestavam, que pouco falavam de amor.
Nas viagens com os pais, descobrira alguns hbitos masculinos estranhos. Por exemplo, que os homens de muitas tribos africanas tinham quatro esposas e que o sulto 
da Turquia possua um harm com numerosas mulheres. Mas tudo lhe havia parecido irreal.
Agora conhecia Antoinette e compreendia que um homem pudesse achar tal mulher irresistvel. Tentar lutar contra ela pelo amor de lorde Orsett estava fora de cogitao.
Depois de Kelda sair do banho e vestir a roupa de baixo, a criada disse:
- Como a senhora  uma noiva, precisa usar um vestido branco.
- No creio que eu tenha um - respondeu, maquinalmente, pois sentia-se muito pouco como uma noiva, naquele estado de quase desespero.
Seus olhos estavam vermelhos de tanto chorar e no tinha vontade de encontrar o marido, sabendo que certamente ele a censuraria por seu comportamento.
"Que importa isso, afinal? Tudo o que fiz  errado para ele. No toe perdoar por ter ajudado Yvette a fugir e tornou claro que eu devia casar com o governador-geral, 
e no com ele. "
Mas, quando a criada trouxe um dos vestidos de Yvette, Kelda iou ligeiramente interessada. Era um traje de baile de cetim branco, coberto de tule e salpicado de 
strass, que Yvette tinha achado Pesado demais para levar numa das trouxas.
- No h espao para ele - dissera a francesinha, em tom Petulante, quando Kelda lhe mostrara o vestido, ainda pendurado no armrio. - Alm do mais, sempre achei 
que no fico bem com um vestido todo branco.
Realmente, o branco no favorecia Yvette tanto quanto as cores vivas que geralmente usava.
Mas agora, quando a criada abotoou o vestido e ela se olhou no espelho, achou que a roupa lhe ficava bem. Os ombros estavam cobertos por tule branco e o strass brilhava 
a cada movimento que fazia. Achou que, de fato, parecia uma noiva,
O corpete era muito justo. A cintura parecia ainda mais fina por causa da saia bastante rodada. A criada lhe fez um penteado moderno, os cabelos presos no alto da 
cabea. Depois, olhando para o reflexo da patroa no espelho, a moa disse:
- Attendez un moment, madame. - Saiu correndo do quarto. Kelda ficou imaginando o que teria ela ido fazer. Quando a viu voltar com duas camlias brancas na mo, 
compreendeu.
A criada lhe colocou as flores no alto da cabea, e isso completou a elegncia da toalete, embora Yvette talvez tivesse usado brilhantes, em vez de flores.
- Madame est trs bellel - disse a criada, vrias vezes. Kelda deu um sorriso forado.
S quando descia a escada, um tanto constrangida, foi que imaginou se lorde Orsett no iria achar graa, ao v-la vestida com tanta elegncia. Poderia mesmo achar 
pretensioso, de sua parte.
Ao chegar ao andar de baixo, Kelda teve o impulso de correr de volta para o quarto e trocar o vestido por um dos que j tinha usado antes.
Nesse momento, o mordomo se adiantou e ela compreendeu que quase se atrasara, pois faltava apenas um minuto para as oito, e lorde Orsett no gostava de esperar.
Tambm ele estava muito elegante, em traje de rigor. Mas, se notou alguma coisa especial na aparncia dela, nada disse.
Quando Kelda se aproximou, ele pegou uma taa de champanhe que estava sobre a mesinha e entregou-a a ela.
- Soube que voc dormiu.
- Desculpe se... causei algum transtorno.
- Fez muito bem. Creio que dormiu muito pouco, a noite passada Kelda achou que devia estar zangado, porque, a essa altura, os criados certamente lhe haviam dito 
que Yvette levara a maior parte de suas roupas em trouxas feitas com lenis da casa. Mas ele falou como se achasse aquilo divertido.
- No h nada que canse mais do que as situaes dramticas e inesperadas. Pelo menos, foi o que sempre achei.
Percebeu que ele estava tentando afastar qualquer constrangimento que pudesse existir entre os dois devido  apario de Antoinette e  exploso de Kelda. Nessas 
circunstncias, forou um sorrisinho e disse:
- Sinto muito no termos ido passear de carruagem... como planejamos.
- Foi melhor que tivesse dormido. E voc se livrou de me acompanhar ao palcio. Foi uma visita um tanto desagradvel.
Falou em tom despreocupado e Kelda o fitou, surpresa.
- Sua Excelncia ficou profundamente decepcionado - disse o lorde, respondendo  sua pergunta muda. - Mas deu-me calorosos parabns e quer oferecer um jantar em 
nossa honra, assim que voc estiver disposta a enfrentar semelhante festim gastronmico.
Kelda deu uma risadinha, que provavelmente era o que ele desejava. Ento, o jantar foi anunciado e eles se dirigiram para o salo.
Quando entraram, ela ficou imvel, atnita.
A ltima coisa que esperava era que houvesse uma celebrao do casamento. Mas a sala estava transformada, com guirlandas de alvas flores nas paredes e nos cantos 
da sala.
A mesa era toda branca, com camlias iguais s que Kelda usava nos cabelos. Em outra mesa, ao fundo, havia um bolo de casamento, grande e elaborado.
Era tudo inesperado e, ao1 mesmo tempo, para uma pessoa que nunca tinha sido alvo de uma celebrao, um encantamento e uma excitao.
- Como pde... pensar nisso? Como conseguiu uma coisa to... maravilhosa?
- Achei que voc ia gostar - disse Orsett, com simplicidade.
- Claro que gosto! Mas... o bolo... Como pde ser feito em to poucas horas?
- Confesso que foi comprado e que meu chef ficou de cara no cho, ao saber disso! - respondeu o lorde, sorrindo. - Mas ele resolveu se reabilitar, preparando um 
jantar que, se comermos de todos os pratos, nos deixar derreados!
Kelda o ouvia, mas ao mesmo tempo olhava ao redor, encantada excitada como uma criana que vai pela primeira vez assistir a uma pantomima.
As flores perfumavam o ambiente. Dos candelabros enfeitados com flores, vinha uma luz dourada que dava a tudo uma magia que Kelda jamais julgara possvel existir.
- Fez isso para mim? Realmente para mim? - murmurou, como se no pudesse acreditar.
- Estou querendo compens-la pela cerimnia banal diante prefeito. Creio que todas as mulheres, quando casam, querem um catedral, um coro e pelo menos dez damas 
de honra!
Kelda deu uma risadinha.
- No conheo ningum que eu quisesse convidar para ser minb dama de honra.
Ao dizer isso, achou que Orsett provavelmente tivera esse tip de casamento com a tia de Yvette.
Perturbada por Antoinette, at tinha se esquecido de que o marido j havia sido casado.
Teria amado a esposa com paixo? Seria por isso que parecia to cnico, afastando-se da sociedade?
Talvez tivesse jurado nunca mais amar. Ou nunca encontrasse uma mulher que se igualasse  primeira esposa.
"Se eu fosse francesa, talvez conseguisse torn-lo feliz", pensou com tristeza.
Olhou disfaradamente para o marido e achou que nenhum homem poderia ser mais distinto ou mais belo.
Os olhos de Orsett encontraram os dela, e pareceu haver neles uma expresso estranha, que Kelda no compreendeu. Mas disse a si mesma que era por causa da luz dos 
candelabros, que distorcia tudo.
Ao mesmo tempo, sentiu o corao bater estranhamente. Embora no compreendesse por que, a nuvem de depresso que pairava sobre sua cabea desde a hora do almoo 
comeou a se dissipar.

11-5

CAPTULO VII
Quando o jantar, longo e elaborado, terminou, o mordomo disse qualquer coisa a lorde Orsett, em voz baixa. O dono da casa inclinou a cabea e falou a Kelda:
- Os criados querem nos desejar felicidade, mas, como so muulmanos, no podem beber  nossa sade. Acho, ento, que devemos partilhar com eles o bolo de noiva.
- Creio que vo gostar disso - concordou Kelda.
- E, j que temos que aplacar o chef e comer o bolo que ele vai fazer amanh, acho que devemos partir este, na maneira tradicional, e deixar que o levem embora.
Lorde Orsett levantou-se e levou-a at a mesinha onde estava o bolo. Era uma confeco tipicamente francesa, com glac branco e um sino prateado em cima, alm de 
enfeites prateados e botes de flores de laranjeira artificiais decorando as trs camadas.
O mordomo entregou a Kelda uma faca grande e afiada.
A moa pegou-a e ficou indecisa, sem saber se devia comear pela Parte de cima ou pela de baixo. Lorde Orsett disse:
- Creio que o correto  cortarmos o bolo juntos.
Ao dizer isso, colocou a mo sobre a dela. Ao contato dos dedos do marido, e por senti-lo to perto, Kelda experimentou uma estranha sensao percorrer-lhe o corpo. 
Era, ao mesmo tempo, prazer e dor, algo que nunca tinha experimentado.
Era tambm a primeira vez que Orsett a tocava, a no ser quando colocara a aliana em seu dedo, diante do prefeito.
Naquele momento, estava confusa demais para ter conscincia das coisas, a no ser por achar que tudo era um sonho.
Agora, tinha uma aguda percepo da presena dele. Guiada pela mo do marido, cortou a camada inferior do bolo. Quando a faca atingiu a bandeja de prata onde o bolo 
repousava, lorde Orsett disse:
- J fizemos nossa parte. Agora, podem lev-lo e espero que todo mundo aprecie cada bocado.
com um esforo, porque estava constrangida com o que sentia. Kelda respondeu:
- No sou capaz de comer... mais nada.
- Nem eu. Vamos para um dos sales. Hoje, vamos para o qut fica na extremidade da casa.
Kelda ficou imaginando por que essa escolha. Mas, quando entrou no salo, viu que tambm ele tinha sido decorado com flores claras, no com a mesma profuso nem 
com guirlandas como na sala de jantar, mas em vasos grandes, nas mesas. Um perfume de lrios enchia o ar.
- Obrigada... - disse, emocionada por ele ter demonstrado tanta considerao.
Foi at uma das mesas e ficou olhando para um belo arranjo de camlias.
Lorde Orsett parou atrs dela.
- Por que chorou?
Falou de um modo to suave, diferente do que costumava usar. que Kelda de novo sentiu lgrimas nos olhos.
"Deve ser porque estou cansada", pensou. Mas sabia que no era essa a razo de ter chorado com tanto desespero, antes de adormecer.
Como no respondeu, lorde Orsett disse:
- Tenho um presente para voc, porque achei que devia receber um, no dia de seu casamento.
Kelda imediatamente pensou no colar de ouro e mbar que tinha visto no pescoo de Antoinette. Sem refletir, impulsivamente, exclamou:

Ah, - No quero nenhum presente! Por favor, no me d nada! Embora no olhasse para ele, ficou surpreso.
- Por que diz isso? - perguntou Orsett. Como se descobrisse a razo, acrescentou - Creio que tenho muita coisa a explicar. Sente-se, Kelda, e oua.  importante 
para nosso futuro... juntos.
Houve uma pausa antes da ltima palavra, e Kelda respirou fundo. Pelo menos, ele pensava em terem um futuro juntos.
Obediente, mas ainda sem olhar para o marido, ela se dirigiu para um dos sofs e sentou-se num dos cantos.
Orsett escolheu a cadeira em frente, e Kelda achou que ele fazia isso para poder olhar para ela e ver suas reaes. No querendo que ele percebesse muita coisa, 
Kelda abaixou os olhos para as mos cruzadas no colo.
Houve silncio. Achou que, afinal de contas, o marido tinha mudado de ideia e nada ia explicar.
Depois, calmamente, num tom de Voz que ela considerou deliberadamente impessoal, o lorde disse:
- Voc soube, por Yvette, que fui casado com a tia dela, Ginette de Villon?
Kelda inclinou a cabea, confirmando.
- Garanto que voc estranhou, e certamente foi o que aconteceu com Yvette, que, tendo eu casado com uma mulher to atraente, que gostava da vida alegre de Paris, 
a tenha trazido para morar em Dacar, obrigando-a a ficar aqui at... sua morte.
Qualquer coisa na voz de Orsett indicou a Kelda que estava achando difcil falar do passado, e ela teve a impresso de que ele nunca havia conversado sobre isso 
com ningum.
Constrangida, Kelda disse, rapidamente:
- Se no quiser. contar... compreenderei.
- Tem o direito de saber, e estou decidido a que no haja segredos entre ns.
Encarou-o, surpresa, pois era uma coisa que jamais esperava que ele dissesse. Quando Orsett continuou, ela abaixou de novo os olhos.
- Apaixonei-me por Ginette quando a conheci, em Londres. Achei-a fascinante e muito diferente das outras moas que conheci em bailes e recepes e que minha me 
considerava adequadas para casar comigo. - Lorde Orsett apertou os lbios e continuou: - Foi um "namoro relmpago", como se dizia, porque eu era jovem, muito

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idealista e inexperiente. No estranhei que, ao conhecer Ginette, ela no se interessasse por mim e que depois, de repente, mudasse totalmente e se transformasse 
tanto em caadora quanto em caa.
Havia, sem dvida, uma nota de amargo cinismo na voz de Orsett, como se zombasse de si mesmo.
- Eu me sentia demasiadamente feliz para me mostrar crtico ou curioso. Assim que nos casamos, fomos para Paris, onde fui recebido efusivamente pela famlia Villon. 
Tivemos uma lua-de-mel curta e voltamos para Londres. Levei algum tempo para descobrir a razo da preferncia de minha mulher por Londres e tambm por que motivo 
nosso casamento tinha sido realizado com tanta pressa.
De novo ele fez uma pausa.
- Ningum me contou a verdade. Tratava-se apenas de um olhar, um riso, uma insinuao, e o fato de que, sempre que eu entrava numa sala, parecia haver um sbito 
silncio, como se estivessem falando de mim. - Continuou, amargurado: - Minha felicidade durou pouco. Na roda que frequentvamos, em Marlborough House. teria sido 
impossvel alguma coisa permanecer secreta por muito tempo. Sempre havia muita gente envolvida.
Kelda fitou- com curiosidade. Orsett tinha agora rugas no rosto, como se o fato de relembrar lhe causasse novo sofrimento.
- Creio que fazia dois meses que eu estava casado, quando compreendi o motivo da pressa de Ginette para casar comigo.
- Que motivo?...
- Ela havia conhecido, na Frana, o prncipe de Gales, herdeiro do trono. Ficou encantada com ele, ou antes, com sua posio e pela glria que o cercava. Seguiu-o 
at a Inglaterra, decidida a conseguir o que considerava uma honra: ser amante dele.
- Oh... no!
- O prncipe tornou claro que nunca se envolvia com moas solteiras. Todas as suas amantes eram casadas, tendo maridos complacentes. Era esse o papel que minha esposa 
tinha reservado para mim.
Kelda respirou fundo. Esperava ouvir tudo, menos isso. Orsett continuou, com voz spera:
- Quando fiquei conhecendo a verdade, toda a verdade, disse a Ginette que ela se enganara, que no apenas eu me recusava a ficar naquela posio vergonhosa, como 
no permitiria que uma

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pessoa que usasse meu nome o desonrasse. - A voz dele pareceu ecoar na sala perfumada. Depois continuou, mais sereno: - Eu tinha ouvido falar de Dacar. Estava tambm 
interessado pela frica, uma parte do mundo pouco conhecida naquele tempo. Trouxe Ginette para c, apesar de seus protestos, e ela morreu dois anos depois.
- Sinto muito. Isso deve t-lo ferido muito.
- Creio que "ferido"  a palavra certa. Mas foi meu orgulho o que mais sofreu. Eu no suportava que zombassem de mim, rissem nas minhas costas, ou que fosse tratado 
com piscadelas maliciosas e cotoveladas, como faziam com homens na mesma situao. Depois que Ginette morreu, eu poderia ter voltado para casa, mas no tive vontade.
- Ento, comeou a escrever seu livro.
- Comecei a fazer pesquisas - corrigiu Orsett. - Viajei por toda a frica, conheci diversas tribos, convivi com elas, aprendendo muita coisa sobre seus costumes, 
que ningum tinha conhecido, at ento.
- Deve ter sido muito interessante.
- Eu tinha construdo esta casa. Depois de terminada, compreendi que gostava daqui, apreciava o isolamento. No sentia mais falta dos amigos que deixei na Inglaterra. 
Quando precisava de companhia, sempre havia homens inteligentes, como o governador-geral.
Fez uma pausa.
A palavra "companhia" fez com que Kelda se lembrasse de Antoinette. Como se adivinhasse o que ela estava pensando, lorde Orsett disse:
- Voc j deve ter percebido o que os franceses compreendem melhor do que os ingleses, que um homem, seja qual for sua posio, precisa de uma mulher em sua vida.
Kelda tinha dificuldade em respirar. Claro que, sendo to belo e atraente, lorde Orsett desejara mulheres e elas o haviam desejado.
Quase pde ver Antoinette ali na sala, com sua beleza, sua graa, os traos bem-feitos, a pele morena realada pelo boubous vermelho e o colar de ouro e de mbar, 
provavelmente presente de lorde Orsett.
Teve de novo uma sensao de desespero, achando que no podia suportar que ele lhe dissesse o quanto Antoinette era importante em sua vida e que, embora casado, 
no podia desistir da mestia.

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Tinha a impresso de que o marido ia pedir que ela se mostrasse compreensiva, que aceitasse o fato de que a posio deles como marido e mulher era diferente, incomum, 
e que ela devia se habituar aos costumes franceses.
Kelda agora se lembrava de ter lido sobre os reis da Frana, que sempre tinham uma esposa e uma amante, sendo esta situao aceita no apenas na corte, como em toda 
a nao.
Mas teve vontade de gritar que no poderia suportar.
Para se controlar, apertou as mos com tanta fora que os dedos doeram.
Orsett continuou:
- Como Dacar, assim como outros postos avanados franceses, fica muito isolado da Europa, e as notcias de parentes que l ficaram demoram muito a chegar, o governo 
e as companhias para as quais os homens trabalham recomendam que casem com... mulheres da terra. Os que no casam tm, naturalmente, amantes. Esses arranjos, conforme 
eu disse a voc e a Yvette, quando chegaram aqui, tm certas regras, que so respeitadas religiosamente.
- Sim... eu me lembro...
- As mtisses so aceitas at pelos homens mais exigentes, por causa de seu sangue francs. Algumas so de fato bem-educadas, ao passo que as nativas, em geral, 
so analfabetas.
Ento, Antoinette era inteligente, tanto quanto bonita, pensou Kelda.
Era o que esperava, no que dizia respeito a Orsett. Achou que talvez fosse tolice pensar que poderia ajudar o marido, no trabalho com seu livro, quando Antoinette 
devia conhecer muito mais sobre as tribos locais e prestar-lhe real assistncia.
Provavelmente, a mtisse podia dar a Orsett todos os detalhes de que ele precisava para o livro. E, se ele viajasse, Antoinette poderia acompanh-lo.
Achou que caa por terra a ltima esperana de poder ajudar o marido, o mesmo acontecendo com seus ideais e sonhos.
De novo, teve vontade de dizer que no queria ouvir mais nada.
Ele lhe diria claramente que no havia em sua vida lugar para ela, a no ser como uma mulher que se sentaria  cabeceira de sua mesa, quando ele recebesse, e que 
o acompanharia s solenidades oficiais.

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A no ser por isso, ficaria sozinha, ao passo que Antoinette partilharia com ele tudo o que tivesse importncia.
Queria gritar que era injusto, que, nessas circunstncias, ele nunca devia ter casado com ela.
A dor que sentia era a mesma de quando havia sido levada para o orfanato e compreendera que no tinha mais identidade prpria, nem personalidade, sendo apenas mais 
uma criana entre muitas.
- O que estou explicando a voc  o papel que Antoinette teve em minha vida - dizia Orsett.
- J percebi... isso.
No aguentava ouvir mais nada. No queria saber o que a mtisse tinha significado na vida dele, nem que Orsett no podia desistir dela.
O marido no ligou  interrupo e continuou:
- Antoinette no tinha o direito de vir aqui, hoje, e eu lhe disse isso. Mas tem suficiente sangue francs para ser muito astuta, boa negociante e calculista em 
matria de dinheiro.
Kelda ergueu a cabea, perplexa.
- Antoinette esteve comigo durante trs anos - explicou Orsett. Durante esse tempo, guardou todo o dinheiro que lhe dei, para que, quando nossa ligao terminasse, 
pudesse casar com outro mtis que tambm estava guardando dinheiro para abrirem uma loja, juntos.
- Quer dizer que, mesmo enquanto estava com voc, ela queria casar com outro homem?
- } lhe disse que essas coisas so bem arranjadas, em Dacar e em todas as colnias francesas. Antoinette foi bastante inteligente para saber que precisava de dinheiro 
e que o meio mais fcil de obt-lo era tornar-se amante de um homem rico.
- Mas ela deve ter amado voc!
- No creio que a palavra "amor" lhe tenha ocorrido, em relao a mim. Fui generoso, dei-lhe um conforto que no teria de outro modo. E ela era discreta. Isso tudo, 
naturalmente, est compreendido no arranjo entre um homem e sua amante, no mundo inteiro.
Pensando que Kelda no tinha compreendido bem, ele continuou:
- O objetivo de uma amante  obter o mximo possvel de seu protetor. Ambos sabem que, quando o caso termina, no deve haver ressentimento nem recriminaes. O homem 
paga pelo prazer que teve, e pronto! Tudo acaba sem dramaticidade.

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- E Antoinette no se importa de perder voc?
A pergunta foi feita em tom quase inaudvel, mas lorde Orsett a ouviu.
- Duvido que derrame uma nica lgrima por minha causa respondeu, com um sorriso. - Para dizer a verdade, creio que neste momento est celebrando com o namorado 
a quantia grande que lhe dei, hoje, para que eles possam casar imediatamente.
- No... compreendo.
Era impossvel continuar ouvindo, de modo que se levantou e foi para a janela, afastando as cortinas para olhar para fora.
A janela estava aberta. Embora bem mais fresca do que o dia, a noite estava quente e mida. O luar dava tons de prata ao mar e as estrelas brilhavam.
Mas Kelda estava olhando dentro de seu corao, imaginando por que motivo as coisas que Orsett lhe dissera tinham de repente feito com que no mais se sentisse deprimida.
Depois, percebeu que o marido estava bem atrs dela.
- J dei minhas explicaes e agora acho mais do que justo que voc me explique duas coisas - disse ele, serenamente.
- Que... coisas?
- Primeiro, por que esteve chorando. Segundo, por que me disse que as mulheres tm corao.
A voz dele era suave, calma, e Kelda ficou emocionada demais para poder responder. Dali a um momento, ele disse:
- As mulheres tm corao... Pensei que isso s existisse nos romances. Como lhe disse, as mulheres que conheci me usaram apenas para seus interesses. O fato de 
eu ser diablico, como voc disse certa vez, no  de admirar.
- Peo desculpas por ter dito isso... No  verdade.
- As mulheres tm corao - murmurou ele, pensativo. Gostaria que algum assinasse essa frase. Voc tem corao, Kelda?
- Espero que... sim.
- Refiro-me,  claro, ao que me diz respeito. O que sente por mim?
Kelda achou impossvel responder. Enquanto desesperada, procurava uma resposta, lorde Orsett continuou:
- Esperei que voc fosse dizer que casaria com o governadorgeral. Afinal, a posio dele  muito mais importante do que a minha.

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tExiste tambm a probabilidade de ele morrer mais cedo, e voc seria uma viva rica.
- Acredita que eu... pensaria numa coisa dessas?
- Sendo voc quem , creio que no. Mas tenho certeza de que  assim que a maioria das mulheres pensa.
S as mulheres que voc conheceu. Acredito que a mulher deseja amar um homem por ele mesmo, no pelo que lhe possa dar.
- E conhece muitas mulheres assim?
Yvette no casaria por dinheiro. Teria casado com Rmy, mesmo quee ele no possusse um nquel, E voc tambm  assim? Kelda no respondeu.
- No respondeu  minha pergunta.
- No sei o que voc... perguntou - disse, quase em tom de desafio.
- Voc no sabe mentir. Hoje de manh quando samos a cavalo, percebi que alguma coisa a preocupava, que estava tensa e apreensiva. Confesso que no sabia o motivo, 
mas sabia o que voc estava sentindo.
Ele tinha razo, mas Kelda no queria confessar isso. O marido continuou:
- Depois, quando fomos para o Falais de Justice, voc estava lamedrontada, eu podia compreender por qu. Na volta, seu medo rpouco a pouco desapareceu e, ao almoo, 
estava quase feliz. Era como se voc tivesse encontrado alguma coisa que procurava, alguma coisa que fazia com que se sentisse diferente de como havia se sentido 
at ento.
Kelda ficou to surpresa com isso, que se virou para ele.  luz das velas e do luar, notou a expresso dos olhos do marido e sentiu o corao acelerar.
- Mas Antoinette apareceu - continuou Orsett, serenamente. Quando voltei para a sala, voc tinha um ar infeliz e, quando me disse que as mulheres tm corao, sua 
voz se partiu.
Aproximou-se mais ainda dela, e Kelda no conseguiu desviar os olhos do rosto do marido.
- Depois, voc chorou, com lgrimas que vinham do corao, um corao que sei que tem e que eu gostaria que me pertencesse.

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A voz de Orsett era to suave, to meiga, que Kelda sentiu lgrimas nos olhos. Logo elas rolavam por suas faces.
Tentou se virar para o outro lado, mas os braos do marido a enlaaram.
- Essas lgrimas so por minha causa, Kelda? Nesse caso, so preciosas.
Ela no pde responder. Apenas escondeu o rosto no ombro dele, seu corpo todo tremendo. Orsett beijou-lhe os cabelos e disse:
- Quero seu corao, Kelda. Quero-o como jamais quis outra coisa na vida. Mas tambm tenho medo, um medo terrvel de ficar desiludido, como fiquei antes.
Devido  mgoa da voz dele e por perceber que o marido tinha um medo do qual ela jamais o julgara capaz, Kelda, estranhamente, no se sentiu mais amedrontada.
- Voc me quer? Realmente?
-  difcil dizer quanto.
- Antoinette  to bonita! Achei que eu nada poderia significar para voc.
Lorde Orsett sorriu, ternamente.
- Tentei explicar-lhe por que no amei ningum durante muitos anos, mas o que sinto por voc  diferente de tudo o que jamais senti.
-  verdade?
As lgrimas ainda molhavam suas faces, mas seus olhos brilhavam.
- Eu a amo, Kelda! Amei-a desde o primeiro momento em que a vi. Mas disse a mim mesmo que era apenas outra iluso, que no havia chance de voc me querer, a no 
ser porque sou um homem rico.
- Como pde pensar que isso importaria? Orsett fitou-a com um leve sorriso.
- Diga o que quero ouvir. Diga, minha querida!
O sangue subiu s faces de Kelda e ela respondeu, em voz apenas audvel:
- Eu o amo... Agora sei que foi por isso que chorei: por pensar que o havia perdido e que voc... no ia mais querer saber de mim.
Os lbios de Orsett buscaram os dela.
Kelda soube ento que era isso o que desejava, era por isso que tinha esperado.

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Teve a impresso de que o luar, as estrelas, as flores perfumadas, a beleza do mundo, tudo estava concentrado no beijo do homem amado.
Ao mesmo tempo, apenas ele existia.
Orsett apertou-a mais ainda. Seus beijos se tornaram possessivos, exigentes, mas Kelda no teve medo.
Por um segundo, pensou que, se morresse agora, teria conhecido a perfeio e a glria do amor, o que achava que jamais encontraria...
Depois, soube que queria viver. Queria viver, por causa do amor que tinha encontrado nesse homem que conquistara seu pobre coraozinho faminto de carinho e de afeio.
Ele a beijou, a ponto de deix-la extasiada. Kelda no podia mais pensar; apenas, sentir.
Lorde Orsett ergueu a cabea e ela murmurou um protesto, porque no queria que a maravilhosa sensao daqueles beijos terminasse.
- Eu o amo! Como posso dizer o quanto o amo?
- Basta continuar dizendo isso, at eu acreditar em voc e voc acreditar em mim. Nada mais ter importncia.
- Como  que poderia ter? - disse Kelda. Ele voltou a beij-la.
Kelda fez um movimento e percebeu, com grande felicidade, que sua cabea estava no ombro do marido e que a luz da madrugada comeava a entrar pelas cortinas.
Aconchegou-se mais a ele e disse, como se no pudesse acreditar:
- Voc est aqui!
- Estou aqui, meu amor.
- Como pude adormecer e perd-lo, at mesmo por um momento?
- Eu a segurava em meus braos, e voc sabe que nunca mais nos separaremos.
- Ainda me ama?
Ele sorriu e beijou a testa dela.
- Est mesmo fazendo uma pergunta to tola? Mas a verdade  que eu ia fazer a mesma pergunta a voc!
- Seria tolice ainda maior. Nunca pensei que um homem pudesse ser to maravilhoso, to forte e, ao mesmo tempo, to delicado e excitante.

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- Eu a excitei, querida?
Kelda teve a impresso de que havia na voz dele uma nota risonha que nunca tinha ouvido antes.
Envergonhada, escondeu de novo o rosto no ombro dele.
- Voc sabe que... sim.
- Mas nem a metade do que pretendo fazer, no futuro. Tenho muita coisa para lhe ensinar, minha querida.
- Agora voc sabe como eu era ignorante. Fiz alguma coisa errada?
Orsett apertou-a mais ainda.
- Tudo o que fez foi certo, perfeito e mais maravilhoso do que eu possa dizer.
- Vai me ensinar... sobre o... amor?
-  uma coisa que farei com prazer. E, minha querida, o amor, mais do que qualquer outra coisa, vai nos ensinar que pertencemos um ao outro.
Kelda ficou em silncio por um momento.
- H uma coisa que quero... perguntar... a voc.
- O qu, minha adorada?
- Quando voc me amou, foi mais maravilhoso do que posso dizer com palavras. Mas voc se sentiu diferente do que... quando amou outras mulheres?
Orsett sorriu ternamente e segurou o queixo dela, fazendo com que o encarasse.
- Sempre lhe direi a verdade, e isso, minha esposa adorada,  a pura verdade: nunca senti felicidade igual  que voc me proporcionou ontem  noite.
Kelda soltou uma exclamao deliciada.
- Era s o que eu queria ouvir, porque significa que poderei dar-lhe uma coisa que ningum lhe deu. - Fez uma pausa e continuou:
- Ontem, me senti to infeliz que de novo pensei que no possua nada. Mas, se eu puder lhe dar o que ningum lhe deu, ento no me considero mais pobre e insignificante.
- Nunca mais ser isso, nunca! Voc tem um lugar em minha vida que  mais importante, mais essencial do que qualquer coisa que eu possua.
-  mesmo verdade?

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- Juro que  verdade. Era isso que me faltava! O que eu queria quando era moo e idealista e achei que jamais encontraria.
Kelda deu um suspiro de felicidade.
- Voc acredita que, se no fosse um homem importante, no tivesse dinheiro e uma casa maravilhosa, eu ainda o amaria, como amo agora?
-  no que desejo acreditar. Mas quero tambm, minha querida, que se esforce para me convencer disso.
- vou tentar... vou tentar, realmente.
Kelda passou a mo no peito do marido, como se quisesse ter certeza de que ele realmente estava ali. Como se a compreendesse, Orsett disse:
- Temos muitos anos para nos convencer de nosso amor. Enquanto voc dormia, estive fazendo planos.
- Que espcie de planos?
- Planos para torn-la feliz, para ver o que ser melhor para a mulher que adoro.
- E que planos so esses?
- No  nada de assustador - disse ele, em tom animador. Mas resolvi que passaremos o inverno em Dacar e o verp na Inglaterra.
- Oh... no!
- Acho que voc e eu devemos voltar para nossa ptria. Durante anos, negligenciei minhas responsabilidades. vou reabrir minha casa em Londres, mas creio que voc 
ser mais feliz em minha propriedade, em Leicestershire. E no tenho dvida de que serei mais feliz, l. - Beijou os cabelos de Kelda e continuou: Mesmo que no 
haja outra coisa, voc vai gostar dos cavalos que pretendo comprar. Cavalgaremos juntos pelas melhores terras para caada que h na Inglaterra.
Por um momento, Kelda ficou assustada. Depois, achou que precisava pensar no marido. Ainda era moo; seria um erro enterrar-se ali, longe de suas razes e das pessoas 
com quem poderia conviver, longe tambm de suas responsabilidades para com o condado onde nascera.
Sentiu que a me a guiava, ajudando-a nesse momento especial. Soube, instintivamente, que estava numa encruzilhada, no somente de sua vida, mas da vida do marido.

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- Oh, meu querido, onde quer que estejamos, serei feliz... a seu lado - disse, apaixonadamente. - Farei o que voc quiser, mas  preciso que me ajude a no cometer 
erros, para que no se envergonhe de mim.
Percebeu que Orsett estava comovido, mas, antes que ele dissesse qualquer coisa, acrescentou:
- Levei uma vida muito diferente, depois que meus pais morreram, e sou ignorante em matria de convenes sociais, de como me comportar, o que dizer e o que fazer. 
Mas, se voc estiver a meu lado e me ensinar, no terei medo.
- Nunca mais deixarei que tenha medo. Peo-lhe que me perdoe, querida, por t-la amedrontado em tantas coisas, desde que veio para c. - Deu uma risada. - Na primeira 
noite, voc me acusou de querer me comportar como um deus. Agora, quer que eu continue fazendo a mesma coisa!
- Isso  diferente! Naquela ocasio, voc estava agindo com indiferena e dio, mas agora est agindo com amor... e  isso o que Deus faz.
- Minha querida, voc tem resposta para tudo. Adoro sua inteligncia, mas a verdade  que adoro tudo, em voc: seu rosto, seus olhos ternos e reveladores, seus lbios 
e, naturalmente, seu corpo, que agora  meu.
Passou de leve as mos pelo corpo de Kelda e ela sentiu acender-se de novo o mesmo fogo da primeira vez que ele a possura.
Kelda se lembrou vagamente de ter lido em algum lugar sobre o fogo do amor, mas, quando o sentira, era diferente de tudo o que havia imaginado.
Isso era o xtase do amor, um sonho realizado, duas pessoas tornando-se uma s, unidas por um sentimento quase divino, to grande a sua sinceridade.
- Como posso lhe dizer o quanto me sinto feliz? - perguntou Orsett.
- Quero que seja to feliz, que nunca mais fique zangado ou amargurado.
O marido beijou-lhe os olhos, e ela disse:
-  estranho, mas, quando notei que estava ficando apaixonada por voc, me senti segura. Era uma coisa que eu tinha desejado tanto... Mas agora quero proteg-lo 
para que no sofra mais.

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- Preciso fazer isso, meu amor. Agora que me sinto to feliz, compreendo como eu vivia solitrio e triste. Eu me djzia que era auto-suficiente, que no precisava 
de nada. Depois, encontrei voc e compreendi como minha vida era vazia. Talvez eu tenha desperdiado esses ltimos anos, sem necessidade.
No suportando que ele lamentasse o passado, Kelda disse, rapidamente:
- Tenho certeza de que no  verdade. O livro que voc escreveu ser de inestimvel valor para os europeus que quiserem conhecer a frica pessoalmente.
- Gostaria de acreditar nisso.
- Claro que  verdade. E, um dia, seus filhos ficaro orgulhosos de um pai to inteligente.
Kelda falou sem pensar. Depois, percebendo o que havia dito, ficou vermelha e escondeu o rosto no ombro dele.
- Meus filhos! - disse Orsett, serenamente. -  outra coisa que est faltando em minha vida. - De novo, ergueu o rosto de Kelda. - Vai me dar um filho, querida? 
Gostaria que ele nascesse na Inglaterra, na casa onde nasci. Ficaria contente por ver que deixei para a posteridade, no apenas um livro sobre a frica, como um 
filho para continuar o nome da famlia.
- vou tentar lhe dar no apenas um filho, e sim, vrios.
- E uma filha bonita como voc.
-  o que quer? Mas, por favor, no goste mais de nenhum deles do que de mim.
- Eu ia dizer a mesma coisa - respondeu Orsett, sorrindo. Voc  minha, Kelda, completamente minha. Terei cime at mesmo de meus filhos, se eles tomarem todo o 
seu tempo e toda a sua ateno.
- Isso jamais acontecer, porque para mim  maravilhoso, depois de ter sido uma rf indesejada durante tantos anos, pertencer a algum e me sentir segura. Quero 
continuar assim, em seus braos...
- E  assim que vai ser, querida. Eu a encontrei, Kelda, quando nem mesmo sabia de sua existncia, e nunca mais vou me separar de voc, nunca mais!
Olhou para Kelda e ela percebeu que ele se inflamava; viu o brilho dos olhos dele e sentiu a mo que acariciava seu corpo.

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Depois, tambm ela sentiu o ardor da paixo avassaladora que a consumia. Desejou que ele a beijasse, com um desejo to intenso que quase doa.
Quando os lbios dele prenderam os dela, num beijo longo e apaixonado, Kelda teve a impresso de que o quarto se enchia de luz.
Depois, sentindo o corao dele bater contra o seu, conheceu uma felicidade total, ilimitada.

1

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jjjjjm
QUEM  BARBARA CARTLAND?
As histrias de amor de Barbara Cartland j venderam mais de cem milhes de livros em todo o mundo. Numa poca em que a literatura d muita importncia aos aspectos 
mais superficiais do sexo, o pblico se deixou conquistar por suas heronas puras e seus heris cheios de nobres ideais. E ficou fascinado pela maneira como constri 
suas tramas, em cenrios que vo do esplendor do palcio da rainha Vitria s misteriosas vastides das florestas tropicais ou das montanhas do Himalaia. A preciso 
das reconstituies de poca  outro dos atrativos desta autora, que, alm de j ter escrito mais de trezentos livros,  tambm historiadora e teatrloga. Mas Barbara 
Cartland se interessa tanto pelos valores do passado quanto pelos problemas do seu tempo. Por isto, recebeu o ttulo de Dama da Ordem de So Joo de Jerusalm, por 
sua luta em defesa de melhores condies de trabalho para as enfermeiras da Inglaterra, e  presidente da Associao Nacional Britnica para a Sade.

No perca a prxima edio!
Nas asas do amor
O apito estridente do guarda fez o lacaio fechar apressadamente a porta do vago. O trem partiu e Mina ficou muito tempo olhando para trs. Aquela era a ltima vez 
que via Vent Royal, o lugar onde tinha sido to feliz. Pensou na casa maravilhosa, nos bosques, nas pombas que voavam livres pelos jardins. Pensou principalmente 
no marqus que, quela hora, dormia, sem saber de sua partida. No gostava de fugir assim, feito uma ladra. Mas no era isso mesmo? No havia se apropriado da identidade 
de outra mulher para enganar a todos? Tinha que fugir antes que descobrissem. Voar como os pssaros que seguem o sol. A nica diferena era que Mina levava o inverno 
no corao. E nunca mais voltaria!

Fim
